Arquivo mensal: junho 2010

Unidos pelo Café

Escrevi sobre pão na semana passada, agora é a vez do café.

Quando me perguntam como eu estou, geralmente respondo que “estou em estado de graça permanente”. Este bordão já é minha marca registrada e mostra como a vida é boa e que tenho muitos motivos para comemorar.

Falando em comemoração, esta semana meus pais completam 35 anos de casados e celebram suas Bodas de Coral!

Este raro acontecimento é motivo de muita felicidade, emoção e orgulho em nossa família.

O melhor de tudo é perceber que depois de tanto tempo as demonstrações de amor, carinho, afeto, continuam frequentes.

Os meus pais transformaram, com excepcional maestria, a paixão em amor e o carinho em ternura.

Na semana passada fez muito frio e subi com os meus pais para assistir televisão após o jantar. Meu pai, aos trinta e poucos anos de casado diz: “Deixa o Dri no sofá grande e vamos ficar juntinhos no pequeno.” Ficaram embaixo do mesmo cobertor até dormirem.

Há poucos anos, eu morava sozinho e convidei minha família para um almoço de domingo para apresentar minha nova namorada (que hoje é ex). O almoço foi maravilhoso e o clima de felicidade estava contagiante. À tarde, comecei a arrumar a cozinha, minha mãe e minha então namorada me ajudavam e conversavam bastante. Houve um momento que parei para ouvir minha mãe dizer o seguinte: “Eu sempre gostei de acordar tarde e o Nego sempre gostou de acordar cedo. Ele sempre acorda cedinho nas manhãs de domingo, vai à feira e à padaria. Na volta ele arruma a mesa e faz um café tão gostoso que acordo, lá pelas 9, com o cheirinho do café invadindo o quarto.” E ela completou dizendo: “Sem este cheirinho de café, minha vida não tem graça.” Minha mãe disse isso com mais de trinta anos de casada. E eu, ouvindo isso, reforcei em minha mente que é algo assim que quero em minha vida.

Tem gente que diz que a rotina acaba com os casamentos. Mas, quem não gostaria de viver uma rotina como essa?

Há muitos anos, quando a malharia dos meus pais engatinhava, eu era adolescente e via meus pais produzindo muitas blusas. Como a clientela ainda não estava consolidada, meu pai pegava as blusas que não eram vendidas durante a semana e levava todos os sábados para Santana, onde vendia numa banca de camelô que ele montava. Um destes sábados marcou muito a minha vida. Anoiteceu e meu pai não chegava em casa. Minha mãe já estava muito preocupada quando meu pai chegou por volta de 22:00. Ele estava com a cara péssima e minha mãe já pensou que ele tivesse sido assaltado. Naquele momento ele preferia que tivesse sido vítima de assalto, mas não foi. Quando perguntado sobre o que tinha acontecido para que ele voltasse tão tarde e com aquele rosto triste a abatido, meu pai, morto de vergonha, respondeu: “Hoje, eu não vendi nada.” Minha mãe se aproximou, deu um forte abraço e disse: “Você não precisava voltar tão tarde.”, mostrando todo amor e compreensão que sentia por ele.

Tenho muita sorte e orgulho de ser filho deste casal maravilhoso. Com eles aprendi, por toda a vida, em aulas gratuitas e diárias, como tratar bem uma mulher, como um marido é bem tratado, como tratar bem os filhos. Enfim, aprendi em casa como amar.

A história deles não é um conto de fadas, não será transformada em livro, nem em filme. É uma história real onde houve brigas, discussões, ofensas, mágoas, como acontecem em todo tipo de relacionamento humano.

O casamento é uma panela de barro feita a quatro mãos. O casal escolhe e colhe o barro que vai usar, os dois molham e tornam homogênea a massa, definem juntos o formato e o tamanho da panela, depois velam o fogo que transformará aquele pedaço de barro numa espécie de caldeirão de alquimia, onde os dois colocarão ingredientes para obterem todos os dias o alimento que dará força para o matrimônio manter-se em pé. A panela de barro deixa tudo mais gostoso porque dá um toque caseiro e conserva o calor por mais tempo. A panela de barro é frágil e precisa ser bem cuidada para que jamais caia e quebre, porque não existe cola capaz de emendar os cacos.

Justamente no mês de Santo Antônio, estou eu aqui, feliz e contente, mostrando que existe a possibilidade de viver um casamento feliz. E, continuo com a fé em encontrar alguém com quem eu possa escrever uma história tão linda quanto a dos meus pais. Existem vários casais felizes como eles.

A saúde e a aparência física dos meus pais mostram claramente como ter a certeza de ser querido por alguém faz bem ao corpo. Minha mãe tem 57 anos, aparenta 40 e poucos, tem pele ótima sem ter usado cremes importados e cintura para provocar inveja em muita mulher de 30. Meu pai tem 63 anos, menos barriga que eu e sequer precisa tomar remédio para pressão.

Com os meus pais, aprendi agora que é possível ouvir com os olhos.

O amor é dito verdadeiramente apenas no olhar.

Por que o título é “Unidos pelo Café”?

Porque minha mãe nunca cozinhou bem e faz o melhor café que já provei. Meu pai acha que o melhor café do Universo é o dela e minha mãe acha que o melhor café do Universo é o dele.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Cotidiano de Padaria

O texto desta semana está quentinho! Acabou de sair do forno!

Uma das melhores coisas da vida é ser massa de pão de vez em quando. Ser juntado, amassado, surrado, suado, aquecido, para que a massa fique macia, com casca gostosa e possa ser consumido.

O pão fica bem mais gostoso quando é salgado com suor.

O amor alimenta a alma. O pão alimenta o corpo.

Tem gente que não come carne, outros não comem legumes, mas não conheço quem não goste de pão.

Existem pães de todos os sabores, tipos, cores e nacionalidades. Algum deles agradará seu paladar. Tem amor para todos os gostos.

O pão nosso de cada dia faz parte da mesa de todos e até da oração mais popular do cristianismo.

Antigamente (há muito tempo mesmo) chamar de pão a pessoa amada ou querida era demonstração de carinho. Hoje, nem o Tiozinho da Sukita usa este clichê.

É perfeitamente possível fazer analogias entre a vida amorosa dos seres humanos e o cotidiano de uma boa padaria. Vou citar alguns exemplos:

Da mesma forma que todos querem um pouquinho de amor todos os dias, todos acham muito bom poder comer pão quentinho diariamente.

Quem ama vai à padaria em ponta de pé para comprar aquele pão quentinho que será servido com paixão numa bandeja, na cama, para o seu amor. Este ato é semelhante ao dos pássaros levando ao ninho a comida dos filhotes.

Tem gente que vai à padaria querendo apenas sonhos.

Para quem quer amor sob medida tem pão de metro.

Outros vão à padaria para levar bolo.

Alguns vão à padaria quando querem levar Carolina, Vanderléia, Catarina ou Ana Maria para casa.

Elas vão quando querem se acabar com brigadeiro.

A padaria não é barraca do beijo, mas tem beijinho que adoça a boca.

Uns vão para beber ou conversar e não comem nada.

A padaria é o único lugar onde a língua de sogra é doce.

Na padaria tem aquele pedaço de pizza para quem não tem companhia pro jantar.

Está exposto na padaria tudo aquilo que é colorido, bonito, gostoso e que não se deve exagerar.

Um café da manhã juntinho na padaria é o programa ideal para quem quer se amar o dia todo sem se preocupar em lavar um copo sequer.

A bomba de chocolate só explode em calorias.

Para comer pão não é necessário usar talher.

Quando o pão é gostoso e tem aquele cheirinho, a gente pega com as mãos e come.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)