Arquivo mensal: janeiro 2011

Rehab

A Amy Vinícola (quero dizer Winehouse) foi embora. Conseguiu até cantar e terminar todos os shows, apesar de continuar precisando de reabilitação.
Reabilitação será o tema de hoje.
Assim como eu, muita gente que não fuma, não usa drogas nem se entrega ao álcool, está exposta ao risco de dependência química e traumas. Todos nós podemos precisar de reabilitação um dia.
Pouco importa se o trauma foi gerado por um acidente provocado pelo bêbado na contramão enquanto você dirigia feliz e contente por uma estrada cheia de hortênsias, ou se foi o preço pago pelo risco de fazer aquela ultrapassagem perigosa ou passar pelo farol vermelho. O corpo sentirá todos os traumas e dores da mesma forma e o processo de reabilitação será o mesmo.
Eu não levo o menor jeito para medicina. Por isso, me limito a falar sobre os traumas do coração, talvez por acreditar que tenha alguma bagagem.
Milhares de médicos e fisioterapeutas formam-se todos os anos para tentar ajudar quem quebra um pé, um braço, a bacia ou o crânio. Mas, quem quebra a cara, ou melhor, machuca o coração, tem sua dor aliviada basicamente pelos amigos e pela família. Poucos têm o privilégio, como eu, de poder contar também com ajuda profissional.
Quem machuca o coração deve passar por um processo de reabilitação como qualquer acidentado.
Muitas cicatrizes ficam, algumas pessoas ficam inválidas, outras morrem. Mas, a grande maioria fica incapacitada temporariamente. Às vezes, o trauma nos faz reaprender a viver, nos ensina outras formas de fazer algumas coisas, e, principalmente, nos faz valorizar o que temos de bom e aquilo que realmente importa.
Percebi em mim, quando estava com o coração machucado, uma grande resistência em me recuperar, por sofrer de dependência química. Sentia crises de abstinência daquele beijo, daquele toque, daquele cheiro e daquele sexo.
Creio que muita gente viva sofrendo o que vivi e sofri. Por isso, resolvi escrever correndo o risco de me expor.
O sucesso da reabilitação do coração é muito parecido com o de uma fisioterapia, depende diretamente da vontade e empenho de quem precisa se recuperar.
É como o motociclista cheio de pinos na perna, louco de vontade de voltar a sentir o vento no rosto. Como o jogador lutando para voltar a jogar, por amor ao esporte, após aquela contusão maldosa. Como aquele bombeiro desesperado por não poder ajudar as vítimas das enchentes por ter quebrado a clavícula quando uma viga caiu sobre ele no momento em que tentava salvar uma mulher nos escombros duma casa.
Apesar de a minha dependência química ter sido muito forte e trazido muito sofrimento, consegui após muito tempo e muito esforço passar pelo meu processo de reabilitação. Inclusive, afirmo, com conhecimento de causa, que vale muito a pena se esforçar para voltar a sentir o vento no rosto, se divertir praticando esporte ou outra atividade, e principalmente, estar com a mão estendida ao lado de alguém no momento em que ela mais precisa.
Me proporcionei, com entusiasmo, o direito de ser querido e amado.
Quando minha reabilitação acabou, voltei a sentir esperança e até euforia, que mesmo estando comedida pela experiência adquirida, não deixa de ser forte.
Neste momento, pergunto, olhando nos olhos, a você que leu até aqui, está com o coração machucado e pensando após se identificar com o que escrivinhei:
Você prefere voltar a ser capaz de amar ou ser um pé de boldo?
Prefere ser alguém pleno e feliz ou ser um vegetal que provoca sensações amargas?
Ser feliz amando é um sonho que requer trabalho, determinação e coragem.
A Amy tem razão ao dizer que “as lágrimas secam sozinhas” na letra homônima que ela mesma ajudou a compor.
Mesmo gostando e admirando o talento fora do tom da Amy, escolhi outra música para a trilha de hoje: “Everybody Hurts”, a obra prima do R.E.M., em minha opinião.


Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Sonhos (Parte 2)

Continuando…
Em dezembro passado, tive a felicidade de assistir a “As Dionisíacas”, peça dirigida pelo Tio Zé Celso dividida em quatro partes. A última, chamada “O Banquete”, teve um momento lindo em que José Celso Matinez Corrêa recitou em verso o que chamou de “A Reinvenção de Vinícius”. Por aproximadamente trinta minutos ininterruptos, a poesia ao som de bossa nova me encantava e as lindas vozes femininas me hipnotizavam ao sussurrarem repetidamente: “É impossível ser feliz sozinho”. Todo este contexto fez com que eu absorvesse toda a mensagem de amor expressada, como se eu guardasse dentro de mim cada uma das palavras.
Saí de lá com a sensação de ter tomado um delicioso banho numa cachoeira de amor.
Realmente é impossível ser feliz sozinho.
Considero importante divulgar toda forma de expressão de amor.
O amor nos mostra os motivos mais racionais possíveis para nos empenharmos na realização de nossos sonhos. O amor nos transforma em seres mais fortes e capazes de avaliar a necessidade de saciarmos desejos, sempre priorizando a realização dos sonhos.
Quando amamos, fazemos o nosso melhor para tentar fazer alguém feliz. Sem amor, fazemos no máximo um esforço limitado visando apenas agradar ao outro.
Esfaqueamos nossos corações com o nosso próprio egoísmo, lutando com covardia contra a natureza, que mesmo assim é generosa ao nos proporcionar inúmeras oportunidades de nos entregarmos ao outro, às causas, ao amor e aos sonhos. Ignoramos que “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade”, como sabiamente Raul Seixas escreveu em “Prelúdio”.
Que sonhos somos capazes de realizar sozinhos? Como compartilhar sonhos acreditando que ninguém presta?
Acreditar que ninguém presta é a maior prova de incapacidade de amar que podemos dar a nós mesmos e ao mundo.
Amando nossa família podemos realizar todos os sonhos mais importantes, porque nossos familiares são deuses em forma de gente, pessoas que nos dão retaguarda, tornando mais leve qualquer situação imposta pela vida.
Amando nossos amigos, somos capazes de respeitá-los e entendê-los a ponto de nem a morte ser capaz de desfazer o afeto e a união. O apoio, ideias, confiança e até as broncas dos amigos são fundamentais para a realização de qualquer sonho.
Amando nossos filhos, somos capazes de ultrapassar nossos limites para ajudá-los a realizarem seus sonhos. Os filhos nos ensinam que desejos são apenas desejos.
Amando quem nos ama, o sonho de ser feliz deixa de ser utopia.
Amando a vida, a solidariedade e a vontade de melhorar a vida do próximo, nos aproxima do sonho de vivermos em um mundo justo, próspero e livre.
Amando os animais, nos conscientizamos da importância de fazer a nossa parte para realizarmos o sonho de viver num mundo com a natureza preservada.
Apenas amando somos capazes de sonhar.
O gênio da lâmpada realiza apenas desejos. Realizar sonhos nunca foi algo simples; requer trabalho, determinação e, principalmente, coragem.
E agora, para fechar com chave de ouro: “In My Dreams With You”, de Steve Vai:

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Sonhos (Parte 1)

Adeus ano velho
Feliz Ano Novo
Que tudo se realize no ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso
Saúde pra dar e vender

Pobrezinha a letra dessa musiquinha, não é? Me passa uma impressão de conformismo, como se nos contentássemos apenas em sobreviver até o próximo reveillon. Ainda mais se levarmos em consideração os discursos gerados durante o período de festas.

Cuecas amarelas e calcinhas vermelhas, dinheiro e paixão…

O reveillon acontece sob a influência da energia do melhor estrategista do zodíaco: Capricórnio.

Capricórnio planeja bem porque consegue enxergar prováveis causas de problemas onde ninguém vê, e por isso, muitas vezes, é rotulado como pessimista.

Apesar da energia do Universo propiciar boas condições para planejarmos, o imediatismo nos contamina a tal ponto que não termos tempo nem para sonhar, quando mais planejar.

O cotidiano aos poucos rebatizado como correria nos permite apenas desejar, desejar e saciar…

Para sobreviver apenas desejando, é necessário apenas que as cuecas amarelas e calcinhas vermelhas atraiam as energias acreditadas.

Talvez, um dia, correremos até nos conformarmos apenas com desejos voláteis, transformaremos o ato de sonhar em tabu ou crime e rotularemos como doidos os que acreditam que viver é muito mais que simplesmente saciar um desejo atrás do outro.

Prefiro sonhar e realizar!

Sonhar não é algo pejorativo como muitos já pensam. Sonhar é libertar seus pensamentos de todo e qualquer paradigma, é abrir a possibilidade de duvidar de tudo aquilo rotulado como impossível, é se permitir a cogitar a criação de algo realmente novo.

Sonhar é querer com razão.

Sonhar é sentir a vontade de transformar alguma coisa em outra melhor, imaginar, vislumbrar e visualizar uma ideia, para conseguir planejar e realizar.

Desejar é apenas sentir vontade de consumir alguma coisa, transformando-a em algo inútil, simplesmente para desfrutar alguns momentos de satisfação.

Me dei o luxo de refletir bastante no reveillon, agradecendo tudo de bom que vivi e consegui em 2010, principalmente a paz conquistada por mim. Também me permiti sonhar muito, acordado ou dormindo, sempre intensamente.

Uma amiga minha costuma repetir que ela sonha e Deus realiza. Mas, depois de pensar muito, concluí que a gente sonha e Deus viabiliza.

A paz que vivo me permite descrever com clareza meu maior sonho:

Gozar a vida ao invés de apenas ejacular momentos.

Pode parecer besta ou utópico, mas considero possível.

Agora, vamos relaxar e viajar ouvindo “Flying In A Blue Dream”, de Joe Satriani:

Até a próxima!

(Adriano Duarte)