Arquivo mensal: fevereiro 2011

Apagaram as Luzes

Procurar encontrar algo de positivo em situações desagradáveis é algo que aprendi a fazer ao longo do tempo. Mas, nem sempre é possível.

Estou há semanas procurando encontrar um ponto positivo que seja na questão do fechamento do Cine Belas Artes, sem o menor sucesso.

Frequento o Belas Artes há bastante tempo, a ponto de chamar alguns funcionários pelo nome. Aprendi a gostar de cinema de uma forma diferenciada assistindo aos filmes de sua programação, tive o privilégio de assistir inúmeros que foram exibidos apenas lá, fiz amigos, vivi bons momentos… Enfim, é um lugar onde me emocionei muito.

Aliás, o que torna o Belas Artes especial é a capacidade de ele provocar emoções fortes, estimulando todos os sentidos simultaneamente, duma forma que só ele é capaz. A visão é estimulada pelos roteiros e fotografias, a audição pelos diálogos e trilhas, o paladar pela pipoca, o olfato pelo carpete e o tato pela companhia.

Hoje sinto uma angústia enorme na iminência de seu fechamento, um vazio pela falta que sentirei das sessões Noitão e Cineclube, das Mostras Internacionais e Pirelli, da vinheta divertida com as informações de segurança… Também sentirei falta dos diretores, atores e atrizes reverenciados apenas no Belas Artes, como num templo.

Neste momento, o que mais sinto pelo Belas Artes é gratidão.

Sim, sou muito grato ao Belas Artes, porque ele é mais do que apenas um cinema, para mim ele é um amigo que me ensinou muito e me deu colo muitas vezes.

Na época em que eu sofri muito, passando por várias grandes perdas seguidas, me sentindo um náufrago cercado por um mar cheio de tubarões, o Belas Artes foi meu Wilson. A sutileza e a sensibilidade das mensagens transmitidas pelos filmes eram absorvidas por mim, como se eu estivesse sendo aconselhado por um grande amigo. As sessões exibidas em suas salas (com nomes de artistas) completavam o apoio e amparo recebido por mim, de minha família e amigos.

Quando eu mais chorei de tristeza, o Belas Artes me arrancou lágrimas diferentes, de emoção, de ternura, de felicidade, como as que derramei assistindo ao Estamos Todos Bem (Stanno Tutti Bene), de Giuseppe Tornatore; uma lição de vida impressionante.

A culpa por tudo isso não é do dinheiro, é de quem não indicou “La Prima Cosa Bella”, de Paolo Virzi, ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é de quem consome “The Time”, versão de “(I’ve Had) The Time of my Life”, trilha de “Dirty Dancing”, assassinada pelo Black Eyed Peas.

Espero que meu amigo Belas Artes me convide para uma pipoca em seu novo endereço, em breve.

Apagaram as luzes, mas tenho fé que o projetor será ligado.

Desejando muito ver as portas do Belas Artes abertas, sugiro a música “When The Music’s Over”, do The Doors.


Até a próxima!

(Adriano Duarte)
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Aquele Abraço

Ainda sonolento, às seis da manhã, abri a porta da cozinha que dá para o quintal e vi o Bicho Terrível (meu cadelo de estimação) deitado como uma esfinge, pedindo carinho com o olhar. Sorri e abri os braços. Imediatamente, ele pulou em mim, ficou em pé e me abraçou do jeito dele, se espreguiçando com o rabo parecendo um pirocóptero. Retribuí o carinho e brinquei um pouco com ele antes de tomar café.

Enquanto cortava os pães, eu admirava a capacidade daquele animalzinho  demonstrar carinho sem nenhuma vergonha, nem pudor. Com toda a inocência canina, aquele bichinho mostrava como é simples querer bem.

Por mais que existam diversas formas de querer bem e demonstrar carinho, me parece que o abraço está fora de moda e, para muita gente, é apenas a última palavra que se escreve em e-mails e SMSs.

O abraço é a forma mais simples que existe para demonstrar uma infinidade de sentimentos a quem quisermos.

O abraço é democrático; pode ser dado em crianças e velhos, pai e mãe, irmãos, amigos, namorada, esposa, parentes, colegas, animais, pessoas que nem conhecemos…

Com um abraço podemos transmitir: carinho, amizade, amor, paixão, tesão, saudade, compreensão, aconchego, respeito, admiração, compaixão, companheirismo, alegria, entusiasmo, lembrança, etc. Um abraço pode ser a cura de muitos males.

O abraço é uma demonstração de carinho bem arroz com feijão, podendo alimentar diariamente sem enjoar, nem fazer mal.

Abraçar é muito simples, basta abrir os braços e se deixar tocar pelo outro.

Uma vez li num livro hare krishna, no início da adolescência, que o abraço é a forma mais simples de aproximar os seres a Deus. Sempre acreditei nesta ideia com fé.

Também lembro que na mesma época havia um programa de rádio com um quadro chamado “Você já abraçou seu filho hoje?”, com o intuito de cultivar este laço de carinho nas famílias.

Palavras são totalmente dispensáveis quando o abraço acontece.

Abrace mais!

Abraçar é de graça e é melhor que injeção na testa.

Só de escrever sobre este tema gostoso, já me bateu saudade daquele abraço, aquele abraço que vestiu minha alma e aquece meu coração…

E para embalar este abraço gostoso, vamos ouvir “Que Maravilha”, de Jorge Ben e Toquinho, que em minha reles opinião é a melhor descrição de um abraço da música brasileira.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Sem Palavras

O tempo passa rápido. Estou escrevendo há quase um ano e parece que foi ontem. Mas, ao mesmo tempo, o Adriano de um ano atrás é tão diferente deste que escreve agora; parece até que meus primeiros textos foram escritos numa encarnação passada.

Naquele tempo, eu era apenas uma panela de pressão no fogo com uma sopa de letrinhas sendo aquecida.

Na verdade, eu tinha muito medo de a panela explodir, por isso resolvi abri-la. Para não jogar comida fora, tentei temperar e dar um toque de amor à receita da melhor forma que pude, para que eu pudesse servir semanalmente algo que não causasse congestão.

Sempre escrevi mal e continuo acreditando nisso, porque escrever foi o que menos aprendi durante este tempo.

Compartilhando experiências, opiniões e, principalmente, sentimentos, sem nenhum pudor, pude aprender a real importância das palavras nas relações humanas.

As palavras regam as relações humanas, fazendo-as germinar, brotar, florescer, mantendo-as vivas.

As palavras são os tijolos da fortaleza chamada intimidade.

A intimidade quebra o limite da palavra escrita ou falada, nos oferecendo uma linguagem única, capaz de nos possibilitar transmitir palavras através de um olhar, um gesto, um carinho, um sorriso, um abraço, um silêncio, uma fuga, uma gaguejada, entre infinitas outras.

Como toda pessoa é um universo e fala uma língua diferente, talvez a intimidade seja a única forma de se tornar poliglota de verdade.

Aprender o dialeto íntimo das pessoas com quem convivemos é muito simples. Basta se importar minimamente com elas, prestando atenção nas sutilezas de suas ações, sem dar qualquer chance ao tédio.

Pode até parecer que escrevi para encher linguiça, por estar sem assunto, ideias ou criatividade. Mas, é justamente o contrário. Tenho história para contar, mas não tenho palavras para descrevê-la.

Estar sem palavras é tão bom; não tinha ideia.

Como disse Renato Russo quando escreveu “Monte Castelo”:

“Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”.

Melhor ouvir a música inteira, não é?


Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Apenas Viver

Entrei no carro pela manhã, liguei o som e estava tocando “O Segundo Sol”, escrita por Nando Reis e interpretada maravilhosamente pela saudosa Cássia Eller. Eu sentia uma paz tão grande e gostosa a ponto de me imaginar recebendo a energia e a luz de dois sóis.

Como todo taurino, tenho um cérebro lento, praticamente um ENIAC, e o pobrezinho travou logo cedo quando a música acabou, por estar com as válvulas frias. O trecho final repetia em minha mente como um disco furado: “Não tem explicação, não tem explicação, não tem, não tem”.

Chegando ao trabalho, a caixolinha começou a esquentar e as informações já estavam sendo processadas a uma velocidade mais alta. Conversava com um colega sobre uma situação profissional e o ouvi dizer que não tinha como explicar o que estava acontecendo. Imediatamente, ao receber esta informação, senti um relê, daqueles bem parrudos, fechar contato no meu cérebro e tive um insight: Realmente, existem coisas que não há como explicar.

Pensando bem, muitas coisas devem ser apenas vividas, sem ficar buscando explicação.

Talvez, o ideal seria pensar de uma forma meio binária diante da vida. Apenas escolhendo viver o que é bom ou mudar o que é ruim.

A vida é como uma piada: só é boa se não precisar ser explicada.

Pra que tentar explicar as razões do Universo mostrar que existe de verdade aquilo que acreditava existir apenas em sonhos?

Tudo aquilo que realmente é bom ou agradável não se explica, se vive.

Hoje, decidi não tentar buscar nenhuma explicação para tudo aquilo de bom que acontece em minha vida. Decidi apenas vivê-las.

Apenas viver o que o Universo me oferece de bom, de presente. Apenas viver da melhor forma possível, intensa ou sutilmente conforme o momento.

Apenas viver, contemplando as alegrias, as boas surpresas, a companhia, os risos, jantares, filmes e mares.

Apenas viver é tudo o que preciso fazer para jamais pensar que eu era feliz e não sabia.

Apenas viver é sorrir também com os olhos.

Apenas viver é tornar a vida simples, porque a vida não tem explicação nem manual de instrução.

Apenas viver é sentir vontade do abraço, aquele abraço tão gostoso que nos despimos para recebê-lo, vendo aquela pessoa linda, de braços abertos que foi feita sob medida pelo alfaiate divino, pronta para nos vestir e aquecer com seu corpo.

Para a trilha de hoje, escolhi uma música que não tem letra, mas transmite uma energia que nos leva a qualquer lugar onde a imaginação for: “Samba Pa Ti”, de Carlos Santana.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)