Arquivo mensal: março 2011

Pé na Estrada

Viver é viajar o tempo todo em direção ao desconhecido.

Viver é um exercício constante de liberdade e responsabilidade de escolha dos caminhos a seguir.

Viajar é deixar a vida nos surpreender com novas pessoas, culturas, ideias, paisagens, imagens, situações, ares, sabores, etc.

Temos a liberdade de escolher, em muitos trechos, se queremos viajar sozinhos ou acompanhados, podemos dar carona, comprar pacotes ou optar por um mochilão.

Escolhemos se queremos viajar durante o dia, apreciando as paisagens, fotografando com os olhos, sentindo o vento no rosto, ou apenas chegaremos a algum lugar na penumbra de uma noite sem lua, enxergando apenas o que os faróis iluminam.

Mesmo sem saber qual é exatamente o destino, ao escolhermos trafegar por uma estrada mais difícil, procuramos nos preservar visando concluir a viagem, diminuindo a velocidade, prestando mais atenção aos obstáculos e placas, consultando guias ou parando para pedir informações. Quando a estrada é difícil, o objetivo é chegar ao destino em segurança, sem se importar com o tempo.

Às vezes escolhemos boas estradas, bem sinalizadas e iluminadas, que nos convidam a apertar o acelerador com força, como se tudo fosse para ontem. Mas, para rodar pelo pavimento sem buracos temos que pagar um preço: o pedágio. De repente, as placas informam que sua velocidade deve ser diminuída, e a cancela avistada somente será aberta após a impressão do cupom fiscal. Seguimos em frente, com o pé embaixo, correndo riscos desnecessários para chegar rapidinho e deixamos de apreciar a beleza da paisagem.

Em alguns momentos, escolhemos uma trilha que somente pode ser vencida a pé, com cautela e perseverança. A trilha costuma ser difícil, justamente para premiar com um espetáculo de belezas naturais apenas aqueles que se dispuseram a enfrentar as dificuldades.

Para viajar é necessário ter coragem, porque todo percurso oferece algum tipo de risco. Condições ideais não existem!

Tem gente que viaja em alto mar, outros preferem ver o mundo do alto.

Alguns preferem subir bem devagar voando num balão. A subida é suave e nos passa tanta segurança a ponto de jogarmos fora todos os sacos de areia de peso desnecessário, que só servem para limitar nosso voo.

Mas, a liberdade é tamanha a ponto de ser possível escolher ficar debruçado na janela, observando a viagem alheia.

Eu, prefiro viajar, conhecer, sentir, viver…

Estou aprendendo a diminuir minha velocidade para correr menos riscos e chegar mais longe, mesmo sem ter a certeza de onde vou chegar. Também estou escolhendo meus caminhos conforme o veículo que tenho disponível.

Colocar o pé na estrada é para aqueles que não têm medo de bolhas nem calos. A estrada chama os pés de quem quer ter histórias para contar; Gonzaguinha escreveu algo parecido em “Quando Se Chega”. E falando nisso, considero ideal colocar “A Vida do Viajante”, de Luiz Gonzaga, para ouvirmos agora:

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Desmistificando o Coração

Fisicamente, o coração é um órgão do corpo de muitos seres vivos, formado por músculos, de comando involuntário, com a função de bombear sangue.

A palavra “coração” também nomeia algo que seria uma entidade regente das nossas emoções e sentimentos.

Este coração simbólico, criado pela humanidade e complicado pelas nossas cabeças, é visto por muitos de nós como um ser com vida própria interagindo conosco.

Das conversas cotidianas às mais diversas formas de expressão de arte, o “conversar com o coração” é citado sempre como bom conselho e caminho para a verdade existente dentro de nós mesmos, como se o coração fosse um guru dentro de nós.

Felizmente, ou não (para muitos), o coração de cada um é pessoal e intransferível, está dentro de cada um de nós e faz parte de nossa essência, como os sentimentos, emoções, pensamentos, sonhos, corpo e a própria vida.

Talvez, tornar o coração um ser independente das nossas vontades tenha sido uma fuga criada para nos eximirmos da responsabilidade que temos sobre nós mesmos, culpando o coração quando sentimos dor.

Pode ser, também, que exteriorizar o coração seja a forma mais simples de lidar com ele, considerando-o um companheiro inseparável.

Se pensarmos bem, tratamos o coração como um animalzinho de estimação, e ele reage como tal, incondicionalmente estando sempre ao nosso lado, querendo nosso bem verdadeira e intensamente.

Quando tratamos bem o coração, dando amor e carinho, respeito e vacinas periódicas, ele fica mais saudável, alegre, com pelos mais bonitos e um brilho encantador no olhar.

Tem gente que abandona o coração e o deixa ser levado pela carrocinha, para ser maltratado, sacrificado e virar sabão.

Pode ser que o coração seja um animal irracional, mas é bastante inteligente. Se servirmos restos de comida, ele come para não morrer de fome e não reclama por ser companheiro e compreensivo, como se soubesse que naquele momento não existisse a possibilidade de comer algo melhor. Quando servirmos ração, ele come com mais satisfação e a alimentação mais saudável e gostosa influencia positivamente no humor e na beleza. O coração fica eufórico e radiante quando colocamos uma carnezinha misturada à ração, e ele retribui o agrado com uma generosidade impressionante. Alguns corações são tão inteligentes a ponto de recusar uma ração que não seja boa, mostrando não se contentarem com pouco.

Quando o coração está saudável, bem alimentado e amado, fica atento e serve como cão de guarda, avisando qualquer ameaça que ronde o nosso lar.

Deixe seu coração livre de coleiras e admire a beleza dos pelos ao vento quando ele corre feliz.

Para fechar, coloco a música que considero ter a letra mais bem escrita desde “O Vencedor”: “Meu Coração”, de Arnaldo Antunes.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

De Repente…

Diante das matérias, fotos e vídeos sobre a tragédia no Japão, eu paralisei. Fui incapaz de escrever qualquer coisa. Preferi não publicar nenhum dos textos que tenho na manga, por acreditar que não se encaixavam em nenhum contexto atual. Por respeito às vítimas, achei melhor ficar calado.

De repente, o mundo de tanta gente acabou.

De repente, tudo se transformou.

De repente, o tudo virou nada e o nada virou tudo.

De repente, paramos para pensar.

De repente, a tristeza foi tamanha a ponto de as pessoas perderem a capacidade de chorar.

De repente, a força virou fragilidade e da fragilidade está brotando a força.

De repente, se tornou impossível entender a realidade.

De repente, a realidade teve de ser aceita.

De repente, amadurecer se tornou a única chance de sobrevivência.

De repente, percebi o quanto nós, brasileiros, somos mimados.

Admiro o povo japonês por ser capaz de carregar tamanho fardo com dignidade.

Nós, brasileiros, somos imaturos por natureza, simplesmente pela incapacidade de lidarmos com as situações impostas pela vida.

Quando a natureza ou a vida nos impõem uma situação desagradável (a nosso ver) não aceitamos nem entendemos. Podemos entender e não aceitar certas situações, podemos aceitar outras e não entender. Talvez, seja bem difícil entender e aceitar simultaneamente. Mas, creio que, a única forma de deixar a inércia e partir para a ação seja: Abandonar o comodismo oferecido pela personagem vítima, interpretada muito bem por cada um de nós, parando para pensar em como entender e aceitar os desafios a nós impostos, para, enfim, agir.

De repente, percebi que a nossa tecnologia só serve para transmitir tragédias em tempo real.

De repente, os holofotes saíram do Oriente Médio, foram ao Japão e voltaram à Líbia.

Para mim, muito mais impressionante que a imagem do navio cargueiro no meio de uma cidade japonesa é a foto de um homem, na Líbia, protegendo outro com o próprio corpo, em pé, diante de um fuzil apontado ao seu peito, enquanto um terceiro, aos gritos, “pede licença” ao fotógrafo, como se este estivesse atrapalhando.

De repente, percebi que o ser humano só dá valor à vida quando está na iminência de perdê-la.

De repente, a vida acaba… E aí?

Até pensei em não colocar nenhuma música, mas “Transmission”, do Joy Division, apareceu num insight:

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Sonhos (Parte 3)

No carnaval, nos embrenhamos no meio do mato, no contra-fluxo do mundo, pegando estradas livres de congestionamentos, mas com muita História. Da Estrada Real, passando pela estradinha de chão batido cheia de pirambeiras, até chegar à antiga fazenda do século XIX, não tínhamos ideia de como seriam bons aqueles dias.

Quando avistamos a primeira casa grande, logo imaginamos estar num sonho, numa outra realidade, noutra época (realmente estávamos), mas o sonho havia começado muito antes (nem tanto assim).

Chegamos sob as águas de março, que caíram sem trégua todos os dias. Conversei em oração com São Pedro, pedindo um pouquinho de sol, ele me respondeu, confidenciando, que era a forma encontrada por ele para ser promovido no céu, de garoto do tempo a santo casamenteiro.

Fomos recebidos de portas e braços abertos, nos apresentaram com muito carinho e orgulho todos os cantinhos da casa até indicarem o nosso. Entre gente simples e lindas borboletas, não sabíamos distinguir se o que ouvíamos vindo de fora era apenas o rio, a chuva ou o vento nas árvores.

Uma família inteira reunida ocupava quase todos os outros aposentos, lotados no feriadão. Passamos todos esses dias sem ouvir uma voz alta sequer, nem das crianças que corriam pra lá e pra cá.

Saímos apenas uma vez para conhecer as cidadezinhas próximas, comprar alguma lembrancinha e almoçar. Como não sabíamos onde tinha boa comida, pedimos algumas indicações e o Restaurante do Ocílio foi recomendado de forma unânime e entusiasmada. Seguimos as placas pela Estrada Real até chegar a mais uma estradinha toda enlameada e chegamos ao tal lugar, onde já avistamos um senhor nos esperando vestindo seu avental, nos recebendo na porta com gentileza e carinho, perguntou nossos nomes e se apresentou. O restaurante é simples e acolhedor como jamais vi. A comida tropeira simples e deliciosa foi degustada por nós dois ao som gostoso de moda de viola. Quando terminamos de alimentar o corpo, aquele simpático senhor pediu licença e sentou-se à mesa conosco para prosear. Seo Ocílio é generoso, serviu mais que uma boa comida. Como guru tropeiro que é, nos alimentou a alma com seus conhecimentos e emoções. Nos contou um pouquinho da história de sua terra e de sua gente, e se emocionou contando sua própria, ensinou também a filosofia de vida que é a arte de amar e cuidar da terra, dando carinho, adubo e rega para gerar árvores firmes carregadas de bons frutos. Com sua sensibilidade e alma de artista me mostrou que a Mulher ao meu lado, colocada por Deus em meu caminho e escolhida pelo meu coração é muito mais do que linda, é exuberante.

Voltei extasiado para casa, mas continuei viajando. Fiquei sem palavras e fui dormir.
Acordei e o sonho não acabou. Além de lindo, é real!

Para completar o clima, vamos ouvir “Romaria”, de Renato Teixeira, cantada por Elis Regina.


Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Tempo de Ser Feliz

O tempo passa, o tempo voa, mas quando estamos felizes vivemos rindo à toa. É tão bom viver sorrindo!

E o tempo passa rápido mesmo, como o fogo num rastro de pólvora ou um arrepio daqueles…

A relatividade do tempo é comprovada quando vivemos algo gostoso e nos surpreendemos com a rapidez do girar dos ponteiros.

No meio do olho do furacão do cotidiano, será que temos tempo para sermos felizes?

O maior inimigo da felicidade é o medo que insiste em boicotar algumas de nossas iniciativas e experiências.

Quem tem medo de ser feliz reclama não ter tempo para nada, mesmo que tenha sobrando.

Quem tem coragem, transforma a vida num banco de tempo “30 horas” e sempre consegue se dedicar ao que traz prazer e a quem traz felicidade, mesmo que precise abdicar do próprio sono.

Quem tem medo de ser feliz, se acomoda perdendo o tempo pensando em formas de se auto sabotar, construindo ideias de auto preservação na mente, simplesmente para justificar a própria inércia.

Quem tem coragem, vence os obstáculos e se esforça para conseguir estar com alguém querido ou fazer algo que traga felicidade, acreditando ser o preço que se paga para ser feliz.

O medroso tem preguiça de atender um telefonema e o corajoso honra o compromisso de um encontro, mesmo que chova bigornas.

O medroso pergunta apenas ao cérebro e o corajoso pergunta primeiro ao coração.

A felicidade intensifica o ritmo de nossas vidas porque, sabendo que o tempo de vida é finito, sentimos vontade de viver cada instante, valorizando toda oportunidade oferecida pelo Universo.

O carnaval está chegando e muitos medrosos colocarão máscaras de corajosos, apenas com a intenção de sentir algo diferente (mesmo que não seja felicidade) durante alguns dias.

Eu acredito que o tempo de ser feliz seja aquele momento em que o coração foca nossa atenção e direciona as ações, nos dando de presente a oportunidade de experimentar sensações e viver a felicidade em plenitude.

Desejando um ótimo carnaval a todos, linkei a música que será a trilha sonora do meu, com a nossa David Bowie de saias: Rita Lee, cantando “Banho de Espuma”.




Até a próxima!

(Adriano Duarte)