Arquivo mensal: junho 2011

Direito e Justiça

Terça-feira à noite, tempestade caindo e eu no trânsito engarrafado ouvindo atentamente, pelo rádio, uma mulher que eu não conhecia ser entrevistada: a designer de jóias Elisa Stecca, formada em Artes Plásticas após deixar o curso de Direito no Largo São Francisco. Me identifiquei profundamente com a maioria das ideias colocadas. Mas, ela citou uma frase que marcou sua vida e me fez pensar bastante, dita por um velho professor: “Existe um abismo entre exercer o direito e se fazer justiça”.

Ao mesmo tempo em que ouvia esta frase, os jornais destacavam em suas manchetes a saída do Palocci da Casa Civil.

Desde ontem, Cesare Battisti comemora sua vitória no Supremo.

Será que limparam a cela onde o Pimenta Neves está preso?

Encontraram o Mizael Bispo, o Roger Abdelmassih ou qualquer outro incluso na lista principal de foragidos?

Haja Pizza!

Lemos e assistimos bovinamente aos noticiários manipulados descaradamente pela nossa “imprensa livre”, que só serve para reforçar a acomodação em massa.

Me parece que o Brasil tem uma Constituição informal, onde se concede o direito para todo brasileiro roubar, desde que não atrapalhe o roubo do outro.

No Brasil, a Lei de Gerson e a de Murphy se completam.

Aqui, ladrão tem cem anos de perdão.

Como Deus não é brasileiro, talvez nem a justiça divina funcione por aqui.

Será que não existe mesmo o que fazer?

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Coragem

Coragem tem um significado muito especial para mim por ter sido uma das palavras mais pronunciadas ao meu redor até a minha adolescência, por eu ser filho de um casal de nordestinos.

Em nordestinês, coragem significa “estar disposto a (verbo)”. Para mim, o nordestino utiliza a palavra coragem de uma forma mais abrangente (talvez até mais correta) do que nós “do sul”.

Para expressar que alguém não era um bom trabalhador, meu pai dizia:

– Fulano de tal não tem coragem para trabalhar.

Para expressar que alguém não era caprichoso, minha mãe dizia:

– Fulano de tal não tem coragem para fazer tal coisa bem feita.

Se alguém tinha o hábito de dormir demais:

– Esse aí não tem coragem para acordar cedo.

Para pedir ajuda:

– Tem coragem para me ajudar?

– Tem coragem para levar minha irmã ao médico?

Ainda na adolescência, comecei a deixar o núcleo familiar e conhecer outros mundos e pessoas. Infelizmente, descobri que na humanidade existe muita gente covarde (talvez a maioria) habituada a rotular como “loucos” os corajosos. Chamar alguém de louco é uma ferramenta mesquinha de ancorar as pessoas dispostas a fazer alguma coisa, nivelando a sociedade por baixo, porque os covardes querem manter-se em seus lugares cômodos.

Jamais vi um nordestino chamando outro de louco, mas não sei afirmar se isso não acontece por respeito ou por ser motivo claro de briga.

Fiquei adulto e segui em frente com a seguinte parte da música “Balada do Louco”, dos Secos e Molhados, internalizada em minha alma:

“Mais louco é quem me diz e não é feliz.”

O covarde que tem a coragem de chamar o outro de louco está disposto a não ser feliz por medo.

Quando comecei a conquistar um pouquinho de maturidade, percebi que existia diferença entre o corajoso e o destemido, após um chacoalhão que a vida me deu. Percebi que o destemido “está disposto a” de forma inconsequente, e o corajoso “se dispõe a” com plena consciência.

A vida me mostrou que a consciência é um teto que nos protege da chuva. E todo teto precisa de quatro pilares para sustentá-lo, que são: cabeça, coração, intuição e fé.

Agora, aos trinta e poucos anos, tenho coragem para admitir toda a minha ingenuidade, para dar um passo firme de cada vez em direção à minha consciência, com muito coração, cabeça, intuição, e, principalmente, fé.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

A Arte de Cozinhar

O frio chegou para valer antes do inverno. Por isso, eu (taurino típico) estou me entregando ainda mais aos pecados da carne, da pimenta, das massas, queijos e doces. O frio torna o pecado da gula ainda mais saboroso e tentador.

Comer bem é cuidar bem do corpo; não é engordar (como a maioria foi condicionada a pensar). Comer bem é optar por não colocar qualquer coisa dentro de si. Comer bem é muito mais do que simplesmente matar a fome, é saciar o corpo alimentando-o com sensações múltiplas e sutis. Comer bem é degustar pratos feitos com prazer e amor; não necessariamente comer bem é consumir um prato sofisticado.

Para mim, quem cozinha bem (bem de verdade) é artista, e eu admiro e respeito com tal.

Creio que seja praticamente unânime o conceito de que a comida seja o alimento do corpo da mesma forma que o amor alimenta a alma. A comida e o amor têm muito em comum, se complementando desde um jantar a luz de velas até o gesto de um pássaro alimentando seus filhotes no ninho.

Manter o corpo e alma bem alimentados não é simples como aquecer aquele congelado apertando o botão do micro-ondas, nem como empurrar goela a baixo, com refrigerante, as calorias do fast (junkie) food. Além de dedicação e trabalho, manter o corpo e a alma bem alimentados requer muita sensibilidade.

Para comer um bom prato, seja num bom restaurante ou fazendo em casa, em primeiro lugar é necessário pensar muito em quem nos acompanhará. Lembrando com prazer e entusiasmo daquilo que o outro gosta, buscando dicas na memória para conseguir agradar, ou até, quem sabe, surpreender na escolha.

Cozinhar em casa ou comer em um bom restaurante é trabalhoso de formas diferentes. Em casa, é preciso ir à feira e ao supermercado, lavar, cortar, aquecer, cuidar, arrumar a mesa, servir, etc… Para comer fora é necessário escolher a cozinha, a especialidade e o restaurante, consultar se é preciso fazer reserva, pegar trânsito, procurar vaga para estacionar, ficar um pouco indeciso diante do cardápio, etc… Mas, tudo isso vale muito à pena para alimentar o corpo com prazer e a alma com o sorriso de quem nos acompanha.

Quem sente prazer ao realizar todo este trabalho sempre terá boa comida para comer e servir.

Pensar com carinho no outro é o ingrediente principal para se fazer qualquer receita e para manter o amor aquecido.

O amor que nutre a alma deve ser servido, com muito prazer e carinho, diariamente. E, para ter tanto amor para servir, é necessário muito mais do que beijos, abraços, carinho e sexo. É preciso admiração, respeito e pensar no outro com carinho em formas de provocar sorrisos em quem a gente ama. A alma bem nutrida com amor provoca e recebe sorrisos lindos e sinceros com frequência.

Hoje, amanhã, depois e depois, servirei pratos fartos, quentes, fundos e coloridos, regados a bons vinhos a quem eu amo.

Juntos, saborearemos todas as delícias da vida, felizes, amados, bem nutridos e saudáveis (com a pele lisinha).

Deu fome?

Me deem licença para almoçar (e pensar).


Até a próxima!

(Adriano Duarte)