Arquivo mensal: julho 2011

O Dilema de Mateus

A vida é uma estrada repleta de bifurcações e cruzamentos sem placas.

Escolher qual caminho seguir pela estrada da vida pode ser bem complicado em alguns momentos por não existirem mapas ou guias.

Pode ser que o destino seja um só, mas cada um segue a sua estrada escolhendo o caminho em que acredita ser o mais adequado entre as opções existentes em cada momento. Como ninguém tem todas as opções disponíveis em nenhum momento, acredito que seja injusto classificar todo e qualquer caminho (de quem quer que seja) como certo ou errado, curto ou longo, seguro ou arriscado, fácil ou difícil, etc.

Todos nós vivemos em algum momento da vida um dilema como o de Mateus, cuja estória contarei agora:

Mateus caminhava em sua estrada e acelerou o passo ao avistar algo que lhe despertou imensa atenção, algo que qualquer um sonharia em conquistar. Mateus acreditava ter tirado a sorte grande até perceber que o objeto de desejo estava do outro lado de um abismo, mas não desistiu de chegar ao outro lado, mesmo tendo observado que a fenda era larga e profunda. Naquele momento ele podia escolher seguir o caminho à direita ou à esquerda ou seguir em frente e pular o abismo.

Deslumbrado com o brilho de tal objeto, Mateus queria porque queria chegar ao outro lado. Empolgado pensava em mil e uma possibilidades, mas todas apontavam algum risco de ele cair no abismo.

Diante de tamanha dificuldade não desistiu, mas desanimou, sentou no chão e começou a pensar com calma. Ao relaxar, começou a ouvir uma voz gritando desesperadamente dentro dele:

– Mateus, deixe isso para lá e pegue o caminho à esquerda! Daqui a um quilometro encontrará aquilo que realmente é importante em sua vida!

Era seu coração doendo de tanto gritar. Mas a cabeça também ouviu os gritos e disse:

– Vai deixar isso para lá, agora que está tão pertinho? É só você tomar distância e correr para pegar impulso e conseguir pular ao outro lado. Vamos lá, você consegue!

– Mas, eu vou morrer se não conseguir!

– Pegue impulso e procure segurar-se naquela árvore. Vamos lá, você consegue!

O coração continuou a tentar convencê-lo a seguir pela esquerda:

– Mateus, tudo o que você precisa está bem pertinho e deste lado! Por favor, desista de pular!

Mateus respirou fundo, olhou para a esquerda e não viu nada além de uma estrada vazia, olhou para o outro lado do abismo e o deslumbramento com aquele objeto só aumentava. Quanto mais olhava, mais era seduzido por aquele brilho e mais achava que aquele abismo não era tão largo assim e que conseguiria pular. Se imaginava sendo o mais importante homem do planeta com aquela conquista. Fechava os olhos e respirava com toda a força, para encher bem os pulmões e apertar seu coração até que a voz se calasse.

A voz da cabeça o convencia a pular, ecoando dentro daquele ego inflado, minimizando o tamanho do risco.

Mateus não tinha certeza, mas com os pulmões cheios e o coração apertado pelo ego inflado, decidiu correr o risco de pular. Caminhou até a beira do abismo e observou por alguns minutos a largura, a profundidade e a árvore do outro lado. Deu meia volta e começou a caminhar lentamente como se estivesse duelando com alguém, contando os passos até ganhar distância. Parou. Deu meia volta novamente. Olhou fixamente a árvore do outro lado. Sua cabeça gritava palavras de incentivo para que Mateus não fosse capaz de ouvir qualquer manifestação de seu coração naquele momento. Respirou bem fundo e sentiu seu coração apertado bater forte como nunca antes. Fixou o olhar na árvore e correu o máximo que podia. Saltou e sentiu o tempo parar. O pé direito pisou no vazio, o esquerdo escorregou, mas a mão direita segurou forte em um dos galhos da árvore. Apoiou a esquerda no chão e ao custo de muita força conseguiu colocar uma das pernas para cima e rolar para um lugar seguro.

Ofegante e com o coração na boca, agradecia por estar vivo. Deitado embaixo da sombra da árvore que o salvou, sorria engolindo o choro.

Sua cabeça sabia que tinha feito besteira ao fazer Mateus se arriscar daquela forma, mas não tinha coragem para admitir e o fazia acreditar cegamente que seria o homem mais importante do mundo por ter em seu poder aquele objeto que desperta tamanho desejo.

O susto passou e Mateus levantou-se. Caminhou ansioso em direção à sua maior conquista até então.
Chegou perto e não acreditava no que via em sua frente.

Deslumbramento? Encantamento?

Nada disso.

Decepção!

Sim, Mateus sentiu imensa decepção ao perceber que aquele objeto reluzente havia sido abandonado e já não servia mais para nada. Decepção por perceber que aquele objeto ficaria ali até que sua beleza fosse destruída pelo tempo.

Naquele momento, sua cabeça calou-se de vergonha e Mateus ouviu seu coração lhe dizer baixinho:

– Fique tranquilo, Mateus. Siga por esta estrada paralela ao abismo na direção apontada por mim quando estávamos do outro lado. Em breve verá do outro lado aquilo que realmente é importante sua vida.

Mateus ouviu seu coração e seguiu pela estrada sentindo um vazio enorme no peito, que na verdade era o espaço que seu coração ocupava antes de ser apertado até quase sumir. Sua cabeça continuava em silêncio, mas concordava em fazer o que o coração estava mandando.

Pouco tempo depois, Mateus avistou algo do outro lado do abismo. No momento em que os olhos reconheceram o que estava do outro lado, o coração sentiu imensa alegria e bateu bem mais forte. Ao invés de deslumbramento, Mateus ficou encantado com o que viu. Apertou o passo até ficar em frente; o mais próximo que o abismo permitia. Pensou em pular de volta àquele lado, mas lembrou da dificuldade e de quase ter caído no abismo. Seu coração apontava para o outro lado, mas sentia que não podia arriscar a vida de Mateus ordenando que ele pulasse. Sua cabeça, até então calada, disparou a fazer Mateus se lembrar de todas as suas experiências ruins e ofereceu um banquete a todos os seus medos.

Sentado há poucos metros de conquistar sua maior razão de felicidade, Mateus vive o dilema de pular ou não. Paralisado pelos medos de cair no abismo e de que aquilo seja outra ilusão.

Infelizmente, não posso ajudar Mateus. Preservar ou arriscar a própria vida e conquistar ou não sua felicidade são decisões que apenas ele pode tomar. E Mateus deve ser respeitado por isso.

A cabeça de Mateus não quer o mal dele. Apenas aprendeu um monte de besteiras e preconceitos ao longo da vida; como a de todos nós. É bem difícil dissociar ideias enraizadas pelo tempo, mesmo que saiba que sofra por permitir que sua cabeça pense daquela forma.

A cabeça comanda cada músculo do corpo para que as atitudes se tornem reais, o coração apenas ajuda a irrigar o corpo para mantê-lo vivo.

Aprender a ouvir e respeitar as palavras ditas pelo coração, fazendo a cabeça entrar em sintonia é algo muito difícil, mas minimiza bastante a possibilidade de viver um dilema como o de Mateus:

Arriscar a vida para tentar ser feliz ou tentar se conformar com o vazio que ficou.

Desejo sorte e serenidade para o meu amigo Mateus e para você que teve paciência para ler até aqui.


Um abraço!
Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Passe a Régua!

Ontem, uma luzinha acendeu em minha mente quando passei em frente a um boteco bem fuleiro na Avenida Ibirapuera. Olhei para dentro do bar e vi um homem contemplar um copo de cachaça cheio até a borda para bebê-lo em seguida.

Que luz acendeu? O que eu percebi?

Como se aquela cena fosse um quadro, observei um homem que não se contentou com um copo meio cheio ou meio vazio; percebi alguém que fez diferente da maioria e nivelou por cima. Aquele homem escolheu sentir prazer daquela forma e deve ter aproveitado cada gota que aquele copo era capaz de comportar.

Lógico que você sabe que não estou defendendo nem fazendo apologia à bebida. Apenas estou utilizando este exemplo para dizer que nossas atitudes comprovam a escolha de nivelarmos por baixo ou por cima qualquer coisa na vida.

Nivelar por cima é para poucos, por exigir coragem e disposição para enfrentar todos os obstáculos, o espanto e até a inveja dos outros.

Nivelar por baixo é bem mais fácil, mais cômodo. Indiferente como um banho morno ou uma comida insossa. É como se acostumar com o congestionamento diário. Simples como achar que as coisas são assim mesmo. Covarde como chamar de sorte o resultado do trabalho do outro.

Será que você vai nivelar sua vida por baixo por preguiça de ser feliz?

Acredito que o primeiro passo seja conquistar o equilíbrio entre ter orgulho de tudo que já fez e aprendeu e ter humildade para aprender o máximo que a vida pode lhe oferecer, com tudo e todos.

Alimente-se com pratos fartos de bem e mate sua sede bebendo copos cheios de amor!

E para concluir a reflexão de hoje, sugiro que ouça pelo menos três vezes a música “Loterias da Babilônia, de Raul Seixas:

Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Crer para Viver

Ontem, assistindo a uma comédia romântica, fiz um comentário que está me fazendo pensar até agora:

“Só boto fé em três coisas na vida: em Deus, no amor e na família.”

Imediatamente percebi a importância desta pequena frase em minha vida. Me senti sereno e maduro como nunca antes. A fé pode até remover montanhas, mas posso garantir que ela ajudou (e muito) a mudar a minha vida para melhor.

É bastante difícil entender o que é fé, quanto mais ter.

Ter fé é mais do que apenas acreditar. É se conscientizar de que a energia existente em cada um de nós é um bem muito valioso. É depositar as boas energias nas instituições em que mais confia; no meu caso são Deus, família e amor.

Considero “ver para crer” um dos piores erros, simplesmente porque quase nada do que está aí para ser enxergado ou visto é verdadeiro.

Para ter fé é necessário passar por um longo processo de aprendizado. Sim, se aprende a ter fé!

Num dia a gente aprende que não é super-herói e que depositar toda a fé si mesmo é um dos piores erros (talvez o pior) que alguém pode cometer.

Noutro dia aprendemos a deixar de desperdiçar energia falando mal da vida alheia e a aproveitamos para fazer algo que provoque um sorriso em quem a gente ama ou simplesmente quer bem, ou a utilizamos em oração para agradecer ou conversar com Deus.

Até chegar um dia em que nos sentimos seguros e amparados, mesmo quando reconhecemos ser apenas reles mortais capazes de quase nada, percebendo que o acaso não existe e que as coisas fazem sentido mesmo quando não acontecem da forma que desejamos.

Ver para crer é assistir ao espetáculo da vida simplesmente como espectador, sentadinho num teatro com cortinas fechadas, aguardando alguém mostrar algo conveniente.

Viver é muito mais do que utilizar plenamente os cinco sentidos!

Creia para viver!


Até a próxima!

(Adriano Duarte)

Sonhos (Parte 4)

Dias atrás, o trecho “… Viver é melhor que sonhar. Eu sei que o amor é uma coisa boa!…” da música “Como os Nossos Pais” repetia incessantemente na minha cabeça. Cada vez que sentia a voz da Elis Regina em minha mente, mais absorvia a frase e concordava com a ideia.

Realmente, viver é melhor que sonhar. Sonhar é bom, mas realizar é muito melhor. Nos sonhos podemos tudo, tudo mesmo, fantasiando sensações possíveis pela imaginação livre e ilimitada.

Realmente, o amor é uma coisa (muito) boa, tão boa que transforma os sonhos em planos. O amor faz a imaginação pousar em segurança, permitindo o início de uma caminhada de mãos dadas, que pode até ser mais lenta, mas leva a muito mais longe.

Sonhar não traz nenhuma garantia de felicidade; ouvir o coração, sim!

Aprendi que é preciso ouvir o coração. Ouvindo o coração é possível saber exatamente o que é preciso de verdade para viver bem, conquistando passo a passo. Talvez eu tenha aprendido tudo isso ao perceber que não conquistei tudo que sonhei. Mas tudo que quis com muita fé se tornou real.

Hoje sei que ter fé vale muito mais do que sonhar.

Às vezes, a felicidade pode estar a poucos passos, mas o sonho está no outro lado do abismo. O coração pede para que caminhe meia horinha à esquerda, mas você decide correr o risco de pular o abismo em busca do sonho. Chegando lá, percebe que aquilo não é tem a menor importância.

Será que você teria coragem de pular o abismo de volta para fazer o que o coração havia mandado?

A realidade pode ser muito, mas muito melhor do que qualquer sonho!

Pare de sonhar, ouça seu coração com carinho e tenha fé!

Como diz Gilberto Gil: “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá!”

Agora, me deem licença para eu continuar minha longa caminhada de mãos dadas.

Até a próxima!

(Adriano Duarte)