O Dilema de Mateus

A vida é uma estrada repleta de bifurcações e cruzamentos sem placas.

Escolher qual caminho seguir pela estrada da vida pode ser bem complicado em alguns momentos por não existirem mapas ou guias.

Pode ser que o destino seja um só, mas cada um segue a sua estrada escolhendo o caminho em que acredita ser o mais adequado entre as opções existentes em cada momento. Como ninguém tem todas as opções disponíveis em nenhum momento, acredito que seja injusto classificar todo e qualquer caminho (de quem quer que seja) como certo ou errado, curto ou longo, seguro ou arriscado, fácil ou difícil, etc.

Todos nós vivemos em algum momento da vida um dilema como o de Mateus, cuja estória contarei agora:

Mateus caminhava em sua estrada e acelerou o passo ao avistar algo que lhe despertou imensa atenção, algo que qualquer um sonharia em conquistar. Mateus acreditava ter tirado a sorte grande até perceber que o objeto de desejo estava do outro lado de um abismo, mas não desistiu de chegar ao outro lado, mesmo tendo observado que a fenda era larga e profunda. Naquele momento ele podia escolher seguir o caminho à direita ou à esquerda ou seguir em frente e pular o abismo.

Deslumbrado com o brilho de tal objeto, Mateus queria porque queria chegar ao outro lado. Empolgado pensava em mil e uma possibilidades, mas todas apontavam algum risco de ele cair no abismo.

Diante de tamanha dificuldade não desistiu, mas desanimou, sentou no chão e começou a pensar com calma. Ao relaxar, começou a ouvir uma voz gritando desesperadamente dentro dele:

– Mateus, deixe isso para lá e pegue o caminho à esquerda! Daqui a um quilometro encontrará aquilo que realmente é importante em sua vida!

Era seu coração doendo de tanto gritar. Mas a cabeça também ouviu os gritos e disse:

– Vai deixar isso para lá, agora que está tão pertinho? É só você tomar distância e correr para pegar impulso e conseguir pular ao outro lado. Vamos lá, você consegue!

– Mas, eu vou morrer se não conseguir!

– Pegue impulso e procure segurar-se naquela árvore. Vamos lá, você consegue!

O coração continuou a tentar convencê-lo a seguir pela esquerda:

– Mateus, tudo o que você precisa está bem pertinho e deste lado! Por favor, desista de pular!

Mateus respirou fundo, olhou para a esquerda e não viu nada além de uma estrada vazia, olhou para o outro lado do abismo e o deslumbramento com aquele objeto só aumentava. Quanto mais olhava, mais era seduzido por aquele brilho e mais achava que aquele abismo não era tão largo assim e que conseguiria pular. Se imaginava sendo o mais importante homem do planeta com aquela conquista. Fechava os olhos e respirava com toda a força, para encher bem os pulmões e apertar seu coração até que a voz se calasse.

A voz da cabeça o convencia a pular, ecoando dentro daquele ego inflado, minimizando o tamanho do risco.

Mateus não tinha certeza, mas com os pulmões cheios e o coração apertado pelo ego inflado, decidiu correr o risco de pular. Caminhou até a beira do abismo e observou por alguns minutos a largura, a profundidade e a árvore do outro lado. Deu meia volta e começou a caminhar lentamente como se estivesse duelando com alguém, contando os passos até ganhar distância. Parou. Deu meia volta novamente. Olhou fixamente a árvore do outro lado. Sua cabeça gritava palavras de incentivo para que Mateus não fosse capaz de ouvir qualquer manifestação de seu coração naquele momento. Respirou bem fundo e sentiu seu coração apertado bater forte como nunca antes. Fixou o olhar na árvore e correu o máximo que podia. Saltou e sentiu o tempo parar. O pé direito pisou no vazio, o esquerdo escorregou, mas a mão direita segurou forte em um dos galhos da árvore. Apoiou a esquerda no chão e ao custo de muita força conseguiu colocar uma das pernas para cima e rolar para um lugar seguro.

Ofegante e com o coração na boca, agradecia por estar vivo. Deitado embaixo da sombra da árvore que o salvou, sorria engolindo o choro.

Sua cabeça sabia que tinha feito besteira ao fazer Mateus se arriscar daquela forma, mas não tinha coragem para admitir e o fazia acreditar cegamente que seria o homem mais importante do mundo por ter em seu poder aquele objeto que desperta tamanho desejo.

O susto passou e Mateus levantou-se. Caminhou ansioso em direção à sua maior conquista até então.
Chegou perto e não acreditava no que via em sua frente.

Deslumbramento? Encantamento?

Nada disso.

Decepção!

Sim, Mateus sentiu imensa decepção ao perceber que aquele objeto reluzente havia sido abandonado e já não servia mais para nada. Decepção por perceber que aquele objeto ficaria ali até que sua beleza fosse destruída pelo tempo.

Naquele momento, sua cabeça calou-se de vergonha e Mateus ouviu seu coração lhe dizer baixinho:

– Fique tranquilo, Mateus. Siga por esta estrada paralela ao abismo na direção apontada por mim quando estávamos do outro lado. Em breve verá do outro lado aquilo que realmente é importante sua vida.

Mateus ouviu seu coração e seguiu pela estrada sentindo um vazio enorme no peito, que na verdade era o espaço que seu coração ocupava antes de ser apertado até quase sumir. Sua cabeça continuava em silêncio, mas concordava em fazer o que o coração estava mandando.

Pouco tempo depois, Mateus avistou algo do outro lado do abismo. No momento em que os olhos reconheceram o que estava do outro lado, o coração sentiu imensa alegria e bateu bem mais forte. Ao invés de deslumbramento, Mateus ficou encantado com o que viu. Apertou o passo até ficar em frente; o mais próximo que o abismo permitia. Pensou em pular de volta àquele lado, mas lembrou da dificuldade e de quase ter caído no abismo. Seu coração apontava para o outro lado, mas sentia que não podia arriscar a vida de Mateus ordenando que ele pulasse. Sua cabeça, até então calada, disparou a fazer Mateus se lembrar de todas as suas experiências ruins e ofereceu um banquete a todos os seus medos.

Sentado há poucos metros de conquistar sua maior razão de felicidade, Mateus vive o dilema de pular ou não. Paralisado pelos medos de cair no abismo e de que aquilo seja outra ilusão.

Infelizmente, não posso ajudar Mateus. Preservar ou arriscar a própria vida e conquistar ou não sua felicidade são decisões que apenas ele pode tomar. E Mateus deve ser respeitado por isso.

A cabeça de Mateus não quer o mal dele. Apenas aprendeu um monte de besteiras e preconceitos ao longo da vida; como a de todos nós. É bem difícil dissociar ideias enraizadas pelo tempo, mesmo que saiba que sofra por permitir que sua cabeça pense daquela forma.

A cabeça comanda cada músculo do corpo para que as atitudes se tornem reais, o coração apenas ajuda a irrigar o corpo para mantê-lo vivo.

Aprender a ouvir e respeitar as palavras ditas pelo coração, fazendo a cabeça entrar em sintonia é algo muito difícil, mas minimiza bastante a possibilidade de viver um dilema como o de Mateus:

Arriscar a vida para tentar ser feliz ou tentar se conformar com o vazio que ficou.

Desejo sorte e serenidade para o meu amigo Mateus e para você que teve paciência para ler até aqui.


Um abraço!
Até a próxima!

(Adriano Duarte)
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4 comentários sobre “O Dilema de Mateus

  1. O eterno dilema mente x coração…E quem, afinal, estará com a razão? Feliz ou infelizmente é sempre o tempo que mostra quem estava certo. O nosso "erro" é que partimos de pressupostos e preconceitos e nos esquecemos que a experiência ensina, mas pode acovardar também! Mateus, eu sei que soa clichê, mas a resposta está só dentro de você!!Converse com seus botões e procure acionar a tecla do amor, sempre!Adorei!! Beijos

  2. Pois é, dicotomia da vida que é pertinente a todos, não é exclusividade de Mateus. Com certeza!Parabéns pelas palavras!!! Não surpreenda-se pelo fato de eu estar comentando aqui, pois lembro muito bem dos ensaios que geraram este dilema. Por isso a admiração por estas sábias palavras.Vlw!

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