Arquivo mensal: setembro 2015

A Rapunzel de Mega Hair

Rapunzel era uma mulher muito bonita, moderna e contemporânea. Seus cabelos não eram cor de ouro, nem tão longos assim. Sua voz era muito bonita, mas não sabia cantar. Mas, se soubesse, ninguém a ouviria, porque ao redor da torre onde vivia, tinha barulho demais de carros, buzinas e sirenes durante o dia, e incomodar os vizinhos à noite, ela não queria.

Rapunzel vivia numa torre bem alta, rodeada por grades com cercas eletrificadas e vigiada por muitas câmeras que gravavam apenas a monotonia daquele lugar. Rapunzel, no século XXI, também vivia presa, mas em seu quarto, com a porta trancada e a chave bem guardada em seu sutiã. Nenhuma bruxa má a mantinha presa nem a ameaçava. Ela poderia sair pela porta da frente ou dos fundos, descer de elevador ou de escada, ganhar a rua pela portaria ou pela garagem, mas não, ela preferia ficar no quarto, vivendo o sonho de que poderia ser resgatada pela janela por um príncipe. Mas não qualquer príncipe, tinha de ser O Príncipe idealizado por ela, tão perfeito que só poderia existir em sua fantasia. Mesmo assim, ela tinha plena convicção de que um dia O Príncipe tão idealizado a resgataria da torre. Ela acreditava tanto na possibilidade de ser resgatada que encontrava solução para todos os problemas que surgiam. Como não sabia cantar e vivia em lugar muito barulhento, onde até os pássaros eram roucos, ela escrevia cartas dizendo coisas sobre si mesma e que queria ser resgatada da torre, fazia aviõezinhos de papel e arremessava pela janela. Mas, quem abria as cartas pousadas no chão, olhava para aquela janela e achava difícil demais vencer as grades e chegar àquela altura. Ninguém entendia o porquê de ela não descer para a rua, até porque Rapunzel não era princesa, era uma mulher como qualquer outra. Mesmo assim, alguns homens tentaram. Um foi com um caminhão dos bombeiros e armou a escada Magirus, mas como não era O Príncipe, ela não quis. Outro desceu de rapel pela torre até sua janela, mas como não era O Príncipe, ela não quis.

Dentro daquele quarto, Rapunzel continuava a escrever e a arremessar aviõezinhos pela janela, quando se deu conta de que seus cabelos não eram longos o suficiente para O Príncipe subir até lá. Imediatamente, decidiu fazer um mega hair enorme. Saiu de fininho da torre e foi ao melhor cabeleireiro que existia. Aproveitou que estava lá e também fez as unhas. Voltou ao seu quarto na torre o mais rápido possível. Ficou muito satisfeita com a beleza de suas novas e longas madeixas, passou um batonzinho e lançou suas tranças janela afora e suas esperanças se renovaram.

Com um sorriso no rosto, ela continuava a escrever e a lançar aviõezinhos pela janela, como se fossem flechas do cupido.

Muito tempo passou, mas Rapunzel continuava lá, apesar de só conseguir ficar na janela com os cotovelos apoiados, enquanto olhava para os dois lados da rua com a sobrancelha erguida, um biquinho de lado e um pé balançando impaciente. Até que um dia, finalmente, apareceu um homem que tinha tudo para ser O Príncipe tão idealizado, com um aviãozinho de papel nas mãos e um sorriso no rosto. Ela, curiosamente, quando o viu, abriu apenas um sorriso tímido e desconfiado. Seu coração não disparou. Mesmo assim, ela se curvou até que seu seio tocou a janela. O possível Príncipe caminhou até suas tranças e começou a subir. Mas, na metade da subida, o mega hair se rompeu! Ele caiu estatelado no chão e ela caiu para trás, dentro do quarto. Ela não se levantou para ver se o tal Príncipe, tão idealizado, tinha se machucado. Olhando para o teto, ela abriu um sorriso largo por alguns instantes e gargalhou como uma criança. Agradeceu profundamente por não ter sido resgatada por aquele homem e continuar naquele quarto.

Ela só se levantou depois que a sirene do SAMU já parecia distante. Olhou para fora da janela e viu que já não havia mais ninguém lá embaixo e suspirou aliviada.

Naquele momento, ela se deu conta de que não queria Príncipe nenhum, de que não queria homem nenhum e de que não queria escrever uma história com ninguém. Rapunzel se deu conta que apenas queria ficar quietinha, trancada no quarto da torre, escrevendo a sua estória, naquele ambiente onde tudo, absolutamente tudo, poderia ser exatamente do jeitinho que ela queria, sem tirar nem pôr.

Também se deu conta de que passou anos idealizando e esperando pelo Príncipe, simplesmente porque não queria assumir o ônus de sair definitivamente da torre pelas suas próprias pernas, por romantismo, não por comodismo; se bem que ela estava bem acomodada em sua fantasia.

Saiu da janela e ficou andando em círculos, pensando dentro de seu quarto, até que pegou a chave dentro de seu sutiã e decidiu ir lá fora recolher todos os aviõezinhos que havia lançado.

De volta ao seu quarto, carregando inúmeros aviõezinhos, deixou a porta entreaberta. Sentou-se em sua cama e começou a desdobrar os aviõezinhos e a reler tudo o que havia escrito. Pensou em reunir tudo aquilo e escrever um livro, mas logo desistiu, imaginando que ninguém leria.

Decidiu cortar e tingir os cabelos e não mais usar tranças. Doou todos os vestidos e comprou roupas novas.

Voltou ao seu quarto e sentou diante de sua escrivaninha, suspirou, e começou a escrever novas estórias, cheias de romantismo.

E sem sentir necessidade de trancar a porta do quarto, Rapunzel foi muito feliz em seu mundo!

(Adriano Duarte)

Seja Protagonista do Seu Show, Mas Faça Parte do Show dos Outros

Totalmente meio bossa nova e rock’n’roll. Protagonista do meu show. Este sou eu.

E como é difícil assumir o papel de protagonista da própria vida…

Atualmente, através da Psicologia, me preparo para ter melhores condições de ajudar cada um a ser protagonista de seu show, de sua vida.

Acredito na essência humana, na arte, nos propósitos da vida.

Acredito também que se cada um for protagonista de sua própria vida, o mundo pode sim ser um espetáculo com muita beleza, paixão, drama e Amor de verdade.

No palco da vida, eu sou um ator, eu atuo, com muita verdade!

E faça parte do show dos outros! Seja generoso e aplauda o show dos outros. Se não gosta, não vaie. Saia de fininho no intervalo entre um ato e outro ou espere na porta do camarim com uma palavra que possa ajudar a melhorar a próxima sessão.

Gratidão aos que fizeram e fazem parte do meu show!

(Adriano Duarte)

Semeando Amor

O Amor jamais é desperdiçado quando lançado ao vento
Por mais valioso que seja, o Amor não pode ficar guardado
Se ficar preso numa gaveta, com o tempo fica mofado
Mesmo sem destino certo, o Amor precisa de movimento

A semente do Amor não se perde, mesmo quando cai no cimento
Nem quando cai na sequidão do chão rachado.
Pode brotar quando cai na terra trabalhada com arado
Mas, como o Amor não é transgênico, é preciso respeitar o seu momento

A natureza é abundante quando o assunto é Amor
E não adianta furar a fila, querendo dar uma de esperta
A semente resiste a brotar quando é plantada por gente medrosa

O Amor somente brota quando a semeadura generosa
Precisa de terra, luz, adubo e de rega na dose certa
Só assim, cresce forte para dar frutos e flor

(Adriano Duarte)

Sobre o Menininho Sírio Morto na Praia

Na música “A Lei”, Raul Seixas escreveu que: “todo homem tem direito de mover-se pela face do planeta livremente, sem passaporte, porque o planeta é dele! O planeta é nosso!”

Em “Ouro de Tolo”, Raul nos mostrou que o cume calmo fica longe das cercas embandeiradas que separam quintais.

Em “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, d’O Rappa, fica claro que:
“As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão”

Sepultura, em “Territory”:
“Racist ground will live
Shame and regret of the pride
You’ve once possessed

War for territory
War for territory”

Será que é possível imaginar o que restou na vida do pai do menininho, que também perdeu a esposa e outro filho?

Enquanto isso, o mundo é tão grande, mas tão grande, que se colocarmos apenas uma pessoa por metro quadrado, todos os 7 bilhões de habitantes do mundo caberiam dentro da área do município de Placas, no interior do Pará.

Nós, brasileiros, temos o privilégio de viver em um país cheio de coisas boas, capaz de acolher haitianos, africanos de diversos países, chineses, entre tantos outros. Mas precisamos evoluir muito no sentido de acolher melhor o nosso próprio povo.

É necessário que a dor alheia cause muita indignação!

Enquanto quem detém o poder tiver apoio para construir muros, não serão construídos tetos para aqueles que não têm chão.

(Adriano Duarte)