Arquivo mensal: fevereiro 2016

Sílvia e Priscila

Sílvia da Posse e Priscila da Paz têm quase 40 anos, moram na mesma cidade, no mesmo bairro, trabalham na mesma empresa, estudam na mesma faculdade, mas não se conhecem. Mesmo com tantas coisas em comum, Sílvia e Priscila são completamente diferentes, mas igualmente interessantes.

Sílvia é aquela mulher ligada no 220V o tempo todo, absolutamente prática, não para quieta um minuto sequer, vive correndo, fazendo mil coisas ao mesmo tempo e sempre acha que poderia ter feito um pouquinho mais. Trabalha há anos na área fiscal de uma empresa. É formada em Marketing, mas decidiu fazer Direito para tentar uma promoção, quando se especializar em Direito Tributário.

Priscila é o sossego em forma de gente. É aquela pessoa que a gente sente segurança quando se aproxima, de tão tranquila que ela é. Está há pouco tempo na empresa, mas já é reconhecida pelo seu volume de vendas. Ela é tão doce que ninguém se sente à vontade de dizer não para ela. Todos os colegas gostam dela. Finalmente, ela vai se formar, em Pedagogia, sua grande paixão, depois de ter começado e trancado outros dois cursos.

Mesmo tendo muitos colegas em comum, elas nunca conversaram. Na verdade, nunca se viram. Mas, Sílvia é bem atenta e já percebeu que Priscila é boa no que faz pela frequência em que seu nome aparece nas notas faturadas. E Priscila, como nunca gostou de áreas burocráticas, só ouviu falar de Sílvia por conta de como ela é chamada nos bastidores: Possessílvia.

As pessoas não perdoam. Sílvia é chamada, pelas costas, de Possessílvia, não só por conta de seu nome, Sílvia da Posse, mas porque todos reparam que, para ela, tudo é dela: o trabalho, o setor, a mesa, as coisas sobre a mesa, até os funcionários. Parece uma relação passional, mas é só apego, mesmo sendo muito clara a dimensão de energia que ela demanda.

Priscila também tem um apelido: Pipa. Também não é apenas uma abreviação de seu nome, é por conta de seu jeito leve e avoado de viver. Até seus amigos mais chegados e familiares a chamam assim.

Um tempo atrás, Sílvia perguntou para Stella, sua colega mais chegada:

– Você conhece essa vendedora, a Priscila da Paz?

– Não, Sílvia. Só ouvi falar dela, e muito bem! Mas, acredito que a Amanda deve conhecer. Quer que eu converse com ela?

– Não, Stella. Esquece…

Stella é a colega com que Sílvia mais se identifica. É a estrela do setor, a mais eficiente, a mais tudo, mais ligada e dedicada aos olhos de Sílvia. Já ensaiaram muitas vezes uma amizade, porque funcionam muito bem como parceiras profissionais, mas o jeito competitivo das duas sempre atrapalhou.

Dias se passaram e Sílvia continuava pensando em saber mais sobre Priscila. Não resistiu e foi falar com Amanda:

– Boa tarde, Amanda!

– Está tudo bem?

– Tudo bem sim, Amanda. Você conhece essa vendedora, a Priscila da Paz?

– Conheço sim. Ela é super gente boa!

– E parece ser muito competente também. Vende muito!

– Quer que eu a apresente?

– Não, Amanda. Esquece…

– OK.

E Sílvia nem imaginava que Amanda e Priscila são grandes amigas há muito tempo. Inclusive, foi Amanda quem indicou Priscila na empresa. Priscila sente um carinho tão grande por Amanda que a chama de Amada.

Amanda achou meio estranho porque quase nunca era procurada pela chefe, mas estranhou mais ainda o fato de Sílvia estar perguntando por Priscila. Continuou a trabalhar, mas continuou encasquetada.

Filha de uma professora de língua portuguesa e de um músico boêmio, Amanda recebeu esse nome porque, para os pais, Amanda significava a ação feminina e presente de amar, o gerúndio do verbo amar no feminino.

Como se viam e conversavam com muita frequência, Amanda comentou com Priscila:

– Tem uma coisa que estou achando muito estranha. Sabe a Possessílvia, a minha chefe? Andou perguntando sobre você, se lhe conhecia. Até perguntei se ela queria que lhe apresentasse, mas ela desconversou.

– Eu, hein?! Mas, se ela perguntar de novo e quiser conversar comigo, diga a ela para me procurar.

– Tudo bem.

– Mudando de assunto, agora me diga…

Quanto mais o tempo passava, os comentários sobre as proezas de Priscila como vendedora ganhavam eco nos corredores da empresa, até que um dia, ela ganhou um prêmio.

Quando Sílvia ficou sabendo, imediatamente achou que essa seria a oportunidade de ouro para, finalmente, saber quem é Priscila e tentar conversar.

No dia da premiação, Sílvia sentou ao lado de Amanda, mas não fez qualquer comentário sobre sua intenção de conhecer Priscila. Amanda também não puxou conversa. Mas, quando Priscila foi chamada à frente, Sílvia não aguentou e pensou alto, exclamando indignada:

– Essa que é a Priscila?!

Poucas pessoas ouviram. Amanda só olhou de rabo de olho, mas também não aguentou:

– Como assim, essa que é a Priscila?!

Gaguejando, mas tentando ser simpática, Sílvia respondeu:

– É que eu imaginei que ela fosse bem mais bonita.

– Mas ela é bonita!

– Sim, ela parece ser a simpatia em pessoa.

Sílvia ficou surpresa porque imaginava que Priscila fosse muito parecida com ela em todos os aspectos, da competência à beleza. E tenho de admitir que, realmente, Sílvia é uma mulher muito linda, deslumbrante. Inclusive, Sílvia achava que só uma mulher muito linda conseguiria vender tanto.

Depois da surpresa, enquanto a premiação acontecia, Sílvia começou a se perguntar como era possível Priscila se destacar tanto em vendas sem ser uma mulher deslumbrante. E o mais curioso é que Sílvia, mesmo sendo uma mulher lindíssima, é meritocrata ao extremo, acredita que nada cai do céu, se dedica ao máximo e jamais utilizou a beleza que tem para obter vantagens.

Priscila voltou ao seu lugar, na primeira fila.

Quando a premiação acabou, muita gente foi parabenizar Priscila. Amanda voou como um foguete em sua direção para lhe dar um abraço e Sílvia a seguiu como um rastro de pólvora. Chegou rápido, mas quando Amanda respirou para falar, Sílvia se colocou à frente dizendo:

– Meus parabéns, Priscila! Meu nome é Sílvia. A minha área é a fiscal. Há tempos que venho percebendo o seu talento para vendas pelo volume de notas que você fatura. Queria muito lhe conhecer. Você merece!

Amanda, antes de Priscila pensar em agradecer:

– Pipa, essa é a minha chefe, que disse que queria lhe conhecer.

– Hummm, então é você a Sílvia?

– Sim, sou eu. A Amanda comentou que eu perguntei de você?

– Comentei, sim. Eu e a Pipa somos muito amigas!

– É mesmo. Eu e a Amanda somos como unha e carne!

– Não imaginava. Mas, fico feliz em saber. E saiba que você é a simpatia em pessoa!

Amanda se sentiu muito perdida.

Sílvia se sentiu super à vontade.

Priscila gostou de Sílvia. Na verdade, houve uma empatia mútua e muito forte entre as duas. Enquanto tem gente que o santo não bate de jeito nenhum, os santos das duas trocaram beijinhos, sentaram à mesa e abriram um vinho.

Sílvia passou o seu número de telefone para Priscila e a convidou para almoçar. Priscila agradeceu e aceitou o convite sem confirmar a data porque trabalha muito na rua. Disse que ligaria para combinar quando tivesse certeza de que almoçaria na empresa. Sílvia sorriu, agradeceu, pediu licença e saiu.

Amanda continuou sem entender nada, não falou nada, acabou se esquecendo de abraçar a amiga e voltou para o trabalho.

Priscila e Amanda sempre foram como irmãs de tão parecidas. Compartilhavam tudo, absolutamente tudo: as preferências mais diversas, os grandes amigos, os valores, os segredos e alguns sonhos. Amanda, tendo apenas a imagem da Sílvia chefe em sua mente, não conseguia imaginar como seria um diálogo entre a megera e sua amiga, haja vista que nunca a viu falar de outra coisa a não ser trabalho. Acredito que ninguém nunca viu Sílvia ficar cinco minutos sem conversar sobre trabalho, e principalmente, sobre o trabalho dela.

Mesmo passando a impressão de ser avoada por ser muito desencanada, tranquila e romântica, Priscila sempre cumpre o que promete. Não se passaram muitos dias para o telefone de Sílvia tocar. Combinaram o horário e se encontraram no restaurante escolhido por Sílvia. Chegou um pouquinho mais cedo para garantir a mesa dela de sempre. Priscila chegou em poucos minutos.

– Olá, Sílvia! Como você está? Demorei muito?

– Oi, Priscila! Boa tarde! Tudo bem. Imagina, cheguei agorinha! E você, como está?

– Estou bem. Saiba que me incomoda muito deixar alguém esperando.

– Eu sempre chego cedo em meus compromissos, porque também não gosto de deixar ninguém me esperando. Falando em gostar, gosto do seu jeito. É bem parecido com o meu. Por isso que seus resultados apareceram tão rápido!

– Me desculpe, Sílvia, mas apesar dos nossos resultados serem reconhecidos como bons, acredito que somos totalmente opostas quanto ao estilo de trabalho que adotamos, com todo respeito, porque ouço muita gente comentar que você é muito durona e workaholic na empresa, exige muito de tudo e de todos o tempo todo. O meu ritmo é bem mais tranquilo.

– É que no meu setor, faço questão de que tudo seja muito bem feito e no prazo.

– Vamos pegar os pratos?

– Sim, vamos, senão a hora passa e eu tenho de voltar logo. Tenho um milhão de coisas para fazer!

– Nunca tinha vindo aqui. Gostei! Tudo parece ser muito bem-feitinho.

– Tudo fresquinho, bem-feitinho e gostoso. É o meu restaurante preferido por aqui.

Quando voltaram à mesa:

– Bom apetite!

– Sílvia, quando você vem ao restaurante, você coloca no prato tudo o que oferecem como opções?

– Você acha que estou comendo demais?!

– Como eu acharia isso, se o seu prato é a metade do meu?

– Não entendi.

– Você não colocou no prato todas as opções que o restaurante oferece. Escolheu o que gosta e o que precisa comer, né?

– É verdade, mas continuo não entendendo.

– Com o trabalho, eu faço exatamente a mesma coisa. Não faço tudo. Escolho fazer aquilo que preciso e que gosto. Assim, consigo fazer o que realmente é importante com mais tranquilidade e sobra tempo.

– Acredita que eu nunca tinha pensado nisso dessa forma?

– Acredito sim.

– Gostei!

– Que bom! Fico bem feliz!

– E adorei almoçar com você, Priscila! O que acha de almoçarmos juntas na próxima vez que você vier aqui?

– Acho ótimo! O que acha de almoçarmos no japonês ali da esquina?

– Eu sou vegetariana.

– Sem problemas. Que outro restaurante você gosta?

– Na verdade, eu gosto só desse.

– Já foi em todos?

– Nem todos, mas como gosto muito desse, sempre venho aqui. É gostoso, prático e sempre fui bem atendida.

– Então, vou te levar na lanchonete da academia ali, bem pertinho. Tem uns lanches naturais que você vai adorar! Combinado?!

– Não conheço, mas vamos lá sim. Combinado!

– Também gostei bastante de almoçar com você, Sílvia. A hora passou tão rápido que nem vi.

– Meu Deus! A hora! Tenho de ir embora! Beijo, Priscila! Obrigada! Foi um prazer!

Priscila ainda ficou para comer a sobremesa.

Apesar de Sílvia ter voltado ao trabalho com a mesma pressa de sempre, sem perceber, veio caminhando mais devagar, pensativa por conta de tudo o que Priscila lhe disse.

Amanda sabia que a chefe tinha almoçado com a amiga. Ficou observando de longe e percebeu rapidamente que Sílvia voltou calada, quieta e diferente. Na primeira oportunidade, telefonou para a amiga, perguntando como foi o almoço:

– Oi, Pipa! Como você está?

– Oi, Amada! Tudo bem. E você?

– Estou curiosa para saber como foi esse seu almoço com a Possessílvia.

– Foi bom, agradável e tranquilo. Só conversamos sobre trabalho.

– Eu sabia que aquela megera não falaria sobre outro assunto!

– Percebi que ela dá ao trabalho uma importância bem grande, mas, olhando nos olhos dela, senti que ela é uma pessoa do bem.

– Minha filha, você só fala isso porque não trabalha com ela. Só conversou por meia horinha.

– Abaixe a guarda, Amada! Depois a gente conversa mais sobre a Sílvia.

– Tudo bem.

– Beijo!

– Beijos!

Dias depois, na lanchonete da academia:

– Oi, Priscila! Boa tarde! Me desculpe por lhe deixar esperando.

– Olá, Sílvia! Fique tranquila! Eu cheguei cedo porque não peguei trânsito hoje. Praticamente um milagre! E você, como está?

– Estou ótima, só correndo como uma louca. Afinal, trabalhar, estudar, cuidar de filho e de marido e, além de tudo, ser mulher, não é nada fácil!

– Sei exatamente como é. Não é moleza, não! Você faz que curso?

– Sou formada em Marketing, mas comecei a fazer Direito no começo do ano. Quero me especializar em Direito Tributário para poder ser promovida. Ainda bem que é perto daqui a Unitudo.

– Eu também estudo na Unitudo! Faço Pedagogia. Me formo no final desse ano.

– Pedagogia? Sério?!

– Sim, porque adoro vender, mas amo crianças e ensinar.

– Vamos pegar os nossos lanches?

– Sim, vamos!

– Lembra-se , Priscila, do que conversamos durante o nosso último almoço?

– Lembro sim. Por quê?

– Porque você usou uma analogia inteligentíssima para me mostrar que posso escolher o que gosto e o que preciso no trabalho, da mesma forma que escolho o que comer.

– E?

– E como futura pedagoga, como pretende aplicar essa teoria com as crianças? Ou você vai deixar apenas as crianças decidirem o que vão aprender?

Priscila arregalou os olhos e não conseguiu terminar a mordida que tinha dado em seu sanduíche.

– Nossa, é mesmo! Você foi na mosca agora! Vou pensar com muito carinho sobre isso.

– Afinal, Priscila, quem tem mais conhecimento, quem está melhor preparado, tem a obrigação de contribuir orientando as pessoas ao redor, fazendo com que elas realizem as atividades, mesmo que ainda não tenham condição de entender a importância. Compreende?

– Mais ou menos, Sílvia. Como posso colocar o que você disse em prática sem assumir o papel de dona da verdade?

– Depois do que você me disse no outro almoço, talvez eu também não saiba, Priscila.

– Só sei que vou pensar muito sobre a nossa conversa de hoje. E vou torcer para almoçarmos juntas de novo o mais breve possível!

– Onde?

– Não sei.

– O próximo você escolhe.

– Você sabe que se deixar por mim iremos ao mesmo da outra vez.

– Por mim, não tem problema.

– Combinado?

– Combinado!

– E adorei a lanchonete. Ótima sugestão!

– A gente volta aqui para outro almoço.

– Sílvia, adorei o nosso almoço, a nossa conversa e me sinto muito grata pelo que me disse hoje!

– Por nada! E eu preciso voltar para o trabalho. Já estou atrasada! Até a próxima! Beijo!

– Beijos!

Dessa vez, Sílvia voltou ao trabalho com a mesma pressa e os mesmos passos acelerados de sempre, ligada no 220V e com um sorriso enorme de satisfação. Chegou no setor distribuindo ordens, marchando sobre seu impecável salto alto.

Sabendo que Sílvia tinha almoçado novamente com sua amiga, Amanda esperava que sua chefe voltasse tão quieta como da outra vez. Achou estranho, mesmo sabendo que o jeito dela era exatamente aquele no dia-a-dia. Se tão atarefada que estava, só conseguiu ligar para Priscila no final do expediente.

– Oi, Pipa! Como você está?

– Oi, Amada! Eu estou bem. E você?

– Morta… Você não ia almoçar com a Sílvia hoje?

– E almocei.

– Almoçou? Mas, dessa vez ela voltou elétrica e mandona como sempre.

– E por que ela deveria voltar diferente do almoço comigo?

– Eu esperava que ela voltasse calada e pensativa, como da outra vez. Conversaram sobre trabalho de novo?

– Não. Foi sobre estudo. E não estou entendendo o porquê de você estar interessada nisso.

– Deixa pra lá!

– Depois a gente conversa para combinar um dia para você ir almoçar lá em casa. Tudo bem?

– Bem melhor! Gostei! Beijo!

– Beijos!

No outro dia, na faculdade, Sílvia estava visivelmente cansada, sentada, sozinha num banco, quando Priscila a reconheceu de longe e foi puxar conversa:

– Olá, Sílvia!

– Oi, Pri!

– O que está acontecendo? Que cara é essa?

– Cansada.

– O que acha de irmos conversar lá no barzinho? A gente bebe alguma coisinha, depois entra. Não vamos demorar.

– Tudo bem.

No barzinho:

– Nossa, Pri, eu estou muito cansada. Tenho que tudo! É trabalho, estudo, marido, filhos e não sei nem como ainda consigo arrumar tempo para me cuidar.

– Ninguém te ajuda?

– Ajudar, o Osmar até ajuda, mas do jeito dele, não faz nada direito!

– E, fazer direito é fazer do seu jeito, né?!

– É… Não é bem assim…

– Olha, Sílvia!

– Acho melhor a gente entrar para a aula. Pode deixar que eu pago.

Sílvia é casada com Osmar há doze anos. Ela briga com ele o tempo todo porque acredita que ele seja devagar demais. Osmar nem liga mais. Se eles brigassem como cão e gato, ela seria um pit bull e ele seria um gato persa. Tudo para ela está malfeito. Ela o corrige o tempo todo, inclusive na frente das pessoas. Muitas vezes, ela chega em casa e começa a refazer as coisas, mesmo quando os serviços de casa são feitos pela diarista.

Osmar é irmão de Lindomar. Os dois são inseparáveis e adoram pescar. Nem preciso dizer o quanto Sílvia fica irritada quando fica sabendo que o marido e o cunhado combinam uma pescaria, não é? E ela acredita, do fundo da alma, que o marido é devagar demais e que o cunhado o piora nesse quesito.

Sempre que Sílvia fica brava, Osmar, que é Osmar Benedito, é chamado de “Osmardito” por ela. Mesmo assim, ela morre de ciúmes dele. Para Sílvia, Osmar é dela e pronto. Ninguém pode chegar perto. Ela olha fuzilando qualquer mulher que ela acredite que seja uma possível adversária; e na cabeça dela, as adversárias se multiplicam, apesar de Osmar nunca ter dado o menor motivo de desconfiança. E deve gostar mesmo, mas de uma forma muito prática, porque não é de dar demonstrações de afeto, apenas diz que gosta dela do jeito que ela é. Não precisa se preocupar com absolutamente nada, porque ela cuida de tudo, além de ser muito linda, admirada por todos e mãe de seus filhos: Pedro e César.

As pessoas estranham o porquê de Sílvia demonstrar tanto ciúme sendo a mulher deslumbrante que é. Mas não sabem nada da história dela. Desde a adolescência, Sílvia foi a mais linda da escola, do bairro, da faculdade, de todo lugar. Seu temperamento forte fazia com que sua beleza se tornasse ainda mais evidente e singular. Resultado: os meninos, os rapazes e os homens, ao longo de sua vida, não tinham coragem de chegar junto dela; menos os galinhas, porque ela sempre foi o maior dos troféus. Ainda bem que ela sempre foi muito esperta e nunca facilitou a vida de quem só queria subir no pódio.

Foi paixão à primeira vista quando Sílvia conheceu Osmar, numa viagem que ela fez sozinha para o Nordeste depois de descobrir que tinha sido traída pelo ex. Ela queria se vingar. Mas só se sentiu atraída pelo único cara que não olhou para ela, que também tinha viajado sozinho para filmar algumas imagens para um documentário. Osmar filmava o mar, as praias, as árvores, as pessoas e fazia entrevistas. Estava tão concentrado em seu projeto que não percebeu a beleza exuberante de Sílvia em nenhum momento. Ela achava charmoso o cuidado que ele tinha para posicionar a câmera sobre o tripé, o modo com que ele arrumava os cabelos e o sorriso que ele abria enquanto conversava com alguém. Ela acabou sendo seduzida por aqueles gestos lentos e cuidadosos daquele rapazinho distraído.

Além de linda, Sílvia sempre foi muito inteligente, e logo encontrou uma forma de chamar a atenção de seu objeto de desejo. Puxando conversa como quem não quer nada, enquanto ele tomava uma água de coco, ela conversou com ele superficialmente sobre cinema e ofereceu ajuda nos dias em que estivesse lá, dizendo que queria aprender um pouco e também para não ficar sozinha. Dias depois, quando ela já estava quase desistindo, Osmar percebeu toda a beleza de Sílvia quando a observou através das lentes de sua câmera. Ficou encantado! Na hora, ele teve o insight de perguntar se podia dirigi-la. Ela ficou surpresa, porque não havia percebido que Osmar havia lhe descoberto de verdade, mas acabou concordando sem demonstrar qualquer empolgação. Ele caminhou lentamente em direção a ela, pediu licença com toda e educação do mundo, mexeu nos cabelos dela e a posicionou, alegando que assim a luz a deixaria ainda mais linda. O coração dela acelerou e se deixou levar como se fosse uma boneca. Osmar acabou gravando o momento que, segundo Osmar, foram os segundos em que os olhos de Sílvia brilharam mais lindamente. Minutos depois, ele desligou a câmera e ela pediu para continuar. Ele balançou a cabeça, fazendo sinal de negação, se aproximou dela dizendo que não filmaria mais porque no documentário dele não havia espaço para cena de beijo. E a beijou!

Sílvia e Osmar voltaram da viagem juntos.

Na chegada, a primeira discussão. Sílvia ficou inconformada porque Osmar não filmou o primeiro beijo deles.

Ele assumiu o namoro quando foi apresentado por ela como namorado a todos os parentes que a esperavam no aeroporto. Bem no estilo “quem cala, consente”.

Em pouco tempo, noivaram quando ela quis, casaram quando ela quis, ela engravidou duas vezes quando quis e colocou nos filhos os nomes que ela quis: Pedro e Cesar, porque ela queria que seus rebentos tivessem nomes fortes.

Agora, parece que ficou mais claro como é o modus operandi de Sílvia. Pois tudo o que ela escolheu na vida é dela, como se cada pessoa tivesse “Sílvia da Posse” tatuado em alguma parte do corpo e cada coisa tivesse uma etiqueta com seu nome. Falando em nome, Sílvia quis casar como mandava o figurino porque fazia questão de dizer que é dela até o sobrenome dele: Paixão; Sílvia da Posse Paixão. Possessílvia Paixão? Meu Deus!

Priscila é bem diferente. Namorou por cinco anos e vive junto com Felipe há oito. Priscila o chama carinhosamente de “Fé”, porque ele é pérnambucano arrétado (com acentos agudos) e porque ela se sente absolutamente segura com ele. Pipa e Fé, resolveram morar juntos quando ficaram sabendo que ela estava grávida. Escolheram juntos o nome da filha, Luna, porque, segundo eles, não existe nada mais lindo do que a lua. Inclusive, foi graças ao luar que eles se conheceram. Ou foi graças a Raul Seixas?

Fé estava mal-humorado. Tinha saído no intervalo da faculdade porque não queria papo com ninguém. Caminhava usando fones de ouvido que tocavam a música “Gospel”, de Raul Seixas. Quando, de repente, no momento em que ele ouve cantando “Por que que sempre a solidão vem junto com o luar?”, ele vê a lua linda no céu e, quando abaixa o olhar, vê aquela mulher bonita, usando uma camisa do Raul e com os cabelos pretos brilhantes refletindo o luar. Boquiaberto de tanto encantamento, ele achou que fosse um sinal divino e a abordou, dizendo que a partir daquele momento acreditaria em Deus e no Amor porque a viu com aquele brilho de luar na cabeça, como se fosse um anjo. Pipa só olhou desconfiada e não respondeu. Continuou andando e ele a seguiu, dizendo que jamais a esqueceria porque ela teve o poder de mudar o dia dele, simplesmente por existir. O sorriso dela brilhou nos olhos dele. Ele agradeceu e pediu o telefone dela. Conversaram, se encontraram outras vezes, mas só começaram a namorar sob a luz da lua cheia seguinte.

Fé conseguiu ganhar o coração de Pipa ao longo do tempo, misturando força e romantismo na dose exata. Ele é um cara muito forte e batalhador, chega até a ser bruto em alguns momentos. Mas a sua capacidade de demonstrar carinho em pequenos e sutis gestos, além da certeza absoluta sempre poder contar com ele, despertaram o fascínio de Pipa. É aquele Amor forte, recíproco e leve! Não tem cobranças de nenhum dos lados, se ajudam em todos os sentidos, não há competição, educam a filha com muito carinho e arte, e conseguem manter suas vidas individuais sem ciúmes, numa boa, com muita confiança. Frequentemente saem separados para onde querem e com querem, sem nenhuma restrição ou estresse. Pipa e Fé apenas avisam um ao outro para onde vão e com quem. O respeito à privacidade é algo sagrado para os dois e admirado por todos.

Numa das caronas, na saída da faculdade, Priscila convidou Sílvia e toda família para um almoço em sua casa, no final de semana. Convite que foi aceito na hora!

Amanda foi convidada também. Agradeceu o convite, mas deu a desculpa de estar sem namorado e não se sentir à vontade de ir sozinha.

Sílvia, Osmar, Pedro e César chegaram para o almoço. Priscila e Felipe os receberam de braços tão abertos quanto seus sorrisos. Luna tinha ido passar o domingo na casa da avó. Felipe fez o almoço. Todos adoraram o peixe maravilhoso e a sobremesa deliciosa de manga! A conversa rolou gostosa entre todos, como se já se conhecessem de outras vidas. À tarde, os clubes do Bolinha e da Luluzinha se separaram na casa. Felipe, Osmar e os meninos se divertiram até… Priscila e Sílvia conversaram bastante:

– Que almoço delicioso, Pri! Adorei! O seu marido cozinha muito bem!

– O Fé deixa tudo delicioso que nem ele.

– Já o meu, não serve nem para fritar um ovo.

– O seu o quê?

– Marido, ué?!

– Por que você não se refere a ele pelo nome? Por que não o valoriza? Eu nunca ouvi você falar bem dele!

– É o meu jeito! Mas, saiba que eu amo muito o Osmar!

– Me desculpe, Sílvia, se eu exagerar. Mas, o jeito é seu, o marido é seu, os filhos são seus, o trabalho é seu, o setor é seu, os funcionários são seus. E eu, sou o quê?

– Você é minha amiga, ué?!

– Sua amiga, não!

– Como não?!

– Somos apenas amigas. Da mesma forma que o Fé não é meu marido, eu apenas vivo com ele, sou casada com ele; Luna também não é minha filha, eu apenas sou a mãe dela; Amanda não é minha amiga, apenas somos amigas. Entendeu? Ninguém lhe pertence!

– Para mim, isso é muito confuso.

– Acredito que seja muito mais dolorido do que confuso para se desapegar dessa forma de pensar. Pense com carinho sobre isso! Seja apenas a esposa, a mãe, a chefe, a amiga, sem se apropriar de nada ao seu redor, sem ter que nada. Deixe a vida e as pessoas ao seu redor mostrarem o que têm de bom! As coisas boas não precisam ser necessariamente do seu jeito. Me parece uma forma muito intransigente e pesada de se viver.

– Priscila, muito obrigada! Acho que eu precisava mesmo levar esse chacoalhão!

– Por nada, querida! Desde que nos conhecemos, percebi que você é uma mulher do bem e que tem um bom coração. Só precisa se exigir menos. E eu tenho muito a aprender contigo!

– Tem razão. E conte comigo para tudo o que precisar!

– Pode deixar!

Sílvia e Priscila se tornaram grandes amigas.

Osmar e Fé também pegaram carona na amizade das esposas.

Lindomar está até pensando em namorar sério, porque Osmar não quis mais pescar.

Amanda e Priscila continuam amigas, mas já sabem que seus caminhos começaram a se separar.

E você, está achando que a história acaba aqui? Que nada! A história linda de amizade de Sílvia e Priscila está apenas começando! E tenho certeza absoluta de que vai durar, pelo menos, anos e anos!

(Adriano Duarte)

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