Com a Navalha no Pescoço

São tantos os termos, pesquisas e índices divulgados nas matérias jornalísticas para divulgarem as notícias sobre crises, economia, emprego, desemprego, PIB, classes sociais, poder de compra, inflação, que fica muito complicado para a maioria (que é leiga) compreender o que está acontecendo e ter condições de formar a própria opinião.

Mas, um dia, na cadeira da barbearia, ouvi o barbeiro, um senhor de mais de 70 anos, dar uma aula sobre o que ele entende sobre economia, trabalho e classes sociais, de uma forma extremamente simples, utilizando suas observações do cotidiano ao longo dos anos.

Eu, com a navalha no pescoço, ouvia atentamente ele dizer:

“O povo fica falando, mas nem sabe o que é um rico e um pobre.
Pobre é aquele cabra que trabalha, ganha pouquinho, e vai comprando as coisas pra casinha dele aos poucos. Compra um fogão e parcela em 10 vezes. Quando termina de pagar o fogão, compra uma geladeira e parcela em 10 vezes. Pagando a geladeira, compra a máquina de lavar e parcela. Aos pouquinhos, vai parcelando, pagando, e quando vai ver, o cabra está com a casa toda arrumadinha. Pobre não pode nem sonhar em sair do emprego, porque sabe que se lasca!
Ninguém fala do miserável. Miserável não é pobre; é pior do que pobre! O miserável é aquele cabra que trabalha, mas ganha tão pouquinho que não consegue nem fazer prestação. Às vezes, nem endereço tem. O pouquinho que ganha é só pra comer. E as coisinhas, a maioria, foi doada pelas pessoas que se dispõem a ajudar. A casinha do miserável é fácil de reconhecer, porque tudo está meio velho e nada combina com nada. O miserável, como é obrigado a viver de doações, mesmo quando está trabalhando e recebendo ajuda do governo, não sente tanto o desemprego, de tão pouquinho que recebe.
Classe média é o pior de todos, porque se acha rico sem ser. Classe média é aquele cabra que tem umas coisinhas melhores, ganha um salário mais ou menos, não precisa fazer tantas prestações pra comprar as coisas, viaja. Mas tem mil vezes mais medo de perder o emprego do que o pobre, porque sabe que não é fácil conseguir outro emprego que pague a mesma coisa. E tem o classe média que tem um negócio e acha que é rico. Esse é o pior de todos! Porque pensa que quem trabalha pra ele depende dele e que ele não depende deles. Esse quebra a cara! O classe média é aquele que até consegue juntar umas reservas, mas, se perder o emprego ou o negócio, em menos de um ano, começa a vender as coisinhas dele.
E o rico? Rico é aquele que bota os cabras pra trabalhar pra ele. E que pode parar de trabalhar a qualquer momento que a vida dele vai continuar do mesmo jeito.”

Ele terminou de falar, passou a loção pós-barba em mim, e eu saí de lá mais bonito e encantado com a sabedoria daquele senhor.

Hoje, no Dia do Trabalho, pergunto a vocês:

Vale a pena termos manchetes nos jornais dizendo que a economia brasileira está bombando ao custo de transformar mais pobres em miseráveis e a classe média em pobre?

E o que você faz cotidianamente para evitar que a gente viva num país com mais miseráveis?

Espero, além de boas respostas, boas propostas!

E a navalha, agora está no pescoço de quem?

(Adriano Duarte)

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