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Com a Navalha no Pescoço

São tantos os termos, pesquisas e índices divulgados nas matérias jornalísticas para divulgarem as notícias sobre crises, economia, emprego, desemprego, PIB, classes sociais, poder de compra, inflação, que fica muito complicado para a maioria (que é leiga) compreender o que está acontecendo e ter condições de formar a própria opinião.

Mas, um dia, na cadeira da barbearia, ouvi o barbeiro, um senhor de mais de 70 anos, dar uma aula sobre o que ele entende sobre economia, trabalho e classes sociais, de uma forma extremamente simples, utilizando suas observações do cotidiano ao longo dos anos.

Eu, com a navalha no pescoço, ouvia atentamente ele dizer:

“O povo fica falando, mas nem sabe o que é um rico e um pobre.
Pobre é aquele cabra que trabalha, ganha pouquinho, e vai comprando as coisas pra casinha dele aos poucos. Compra um fogão e parcela em 10 vezes. Quando termina de pagar o fogão, compra uma geladeira e parcela em 10 vezes. Pagando a geladeira, compra a máquina de lavar e parcela. Aos pouquinhos, vai parcelando, pagando, e quando vai ver, o cabra está com a casa toda arrumadinha. Pobre não pode nem sonhar em sair do emprego, porque sabe que se lasca!
Ninguém fala do miserável. Miserável não é pobre; é pior do que pobre! O miserável é aquele cabra que trabalha, mas ganha tão pouquinho que não consegue nem fazer prestação. Às vezes, nem endereço tem. O pouquinho que ganha é só pra comer. E as coisinhas, a maioria, foi doada pelas pessoas que se dispõem a ajudar. A casinha do miserável é fácil de reconhecer, porque tudo está meio velho e nada combina com nada. O miserável, como é obrigado a viver de doações, mesmo quando está trabalhando e recebendo ajuda do governo, não sente tanto o desemprego, de tão pouquinho que recebe.
Classe média é o pior de todos, porque se acha rico sem ser. Classe média é aquele cabra que tem umas coisinhas melhores, ganha um salário mais ou menos, não precisa fazer tantas prestações pra comprar as coisas, viaja. Mas tem mil vezes mais medo de perder o emprego do que o pobre, porque sabe que não é fácil conseguir outro emprego que pague a mesma coisa. E tem o classe média que tem um negócio e acha que é rico. Esse é o pior de todos! Porque pensa que quem trabalha pra ele depende dele e que ele não depende deles. Esse quebra a cara! O classe média é aquele que até consegue juntar umas reservas, mas, se perder o emprego ou o negócio, em menos de um ano, começa a vender as coisinhas dele.
E o rico? Rico é aquele que bota os cabras pra trabalhar pra ele. E que pode parar de trabalhar a qualquer momento que a vida dele vai continuar do mesmo jeito.”

Ele terminou de falar, passou a loção pós-barba em mim, e eu saí de lá mais bonito e encantado com a sabedoria daquele senhor.

Hoje, no Dia do Trabalho, pergunto a vocês:

Vale a pena termos manchetes nos jornais dizendo que a economia brasileira está bombando ao custo de transformar mais pobres em miseráveis e a classe média em pobre?

E o que você faz cotidianamente para evitar que a gente viva num país com mais miseráveis?

Espero, além de boas respostas, boas propostas!

E a navalha, agora está no pescoço de quem?

(Adriano Duarte)

Por que tanto desemprego, tendo tantas coisas para fazer?

Você já parou para pensar em algo que seja capaz de explicar a quantidade de pessoas desempregadas, mesmo tendo tantas coisas para fazer?

E não estou falando apenas do Brasil. Ao redor do mundo, a situação é semelhante na maioria dos países.

A resposta é simples, mas não é simplista:

Ao invés de fazermos o que precisa ser feito, fazemos apenas o que dá lucro!

E não basta dar lucro. Na lógica capitalista, um emprego somente é gerado se o resultado do trabalho for um volume de lucro que seja atraente para o patrão.

E os trabalhos que precisam ser feitos para tornar melhor a vida da nossa sociedade, mas não rendem lucro?

Ninguém faz!

Por que ninguém faz?

Porque nós (ainda) não entendemos que governo nenhum no mundo existe para dar lucro!

Vamos pensar um pouco…

A iniciativa privada já transforma em emprego aqueles trabalhos considerados, por ela, capazes de gerar o volume esperado de lucro. Estipulam o preço de venda dos produtos e os salários a serem pagos, conforme seus interesses de mercado. Pagam impostos para exercer a cadeia de atividades. Mas interferem diretamente nas diretrizes governamentais em diversas esferas.

Só isso, já é capaz de gerar inúmeras injustiças.

Já os governos, que não existem para lucrar, deveriam transformar em emprego os trabalhos que não geram lucro, mas são necessários à sociedade, subsidiando-os através dos impostos pagos pelas empresas e cidadãos.

Mas, como os governos que sofrem interferência econômica direta da iniciativa privada, ao invés de assumirem a realização dos serviços que o mercado não considera atraente, aplicam os impostos pagos por todos nós como se fossem recursos de propriedade de quem detém o capital, diminuindo a possibilidade de transformar em empregos aqueles trabalhos pouco capazes de gerar lucro.

E o que podemos fazer diante de tantos poderes?

Primeiramente, devemos eleger representantes governamentais, nos poderes executivo e legislativo, nas esferas municipal, estadual e federal, que não sejam dominados pelo poder econômico da iniciativa privada.

Também, em nosso cotidiano, devemos dar preferência para comprar de empresas e pessoas que, além de oferecerem bons produtos e/ou serviços, tenham compromisso ético com a sociedade, cumpram as leis, respeitem seus funcionários, que preservem o meio ambiente e não interfiram nos governos.

Tem muita gente, bastante ignorante, vomitando que não entende como uma pessoa pode ficar parada tendo tantos terrenos para carpir.

Dizer uma barbaridade dessa deveria ser crime, haja vista que tantos profissionais com bom nível de conhecimento, em diversas áreas, penam procurando por um emprego há tempos.

Vamos continuar alienados, alimentando discursos de crise, vomitando meritocracia, mendigando migalhas do capital, competindo deslealmente, alimentando corrupção???

Ou vamos amadurecer a nossa visão e gerar condições para a nossa sociedade transformar trabalhos que não geram lucro em empregos dignos?

O desemprego só atinge esses números absurdos e estarrecedores porque a nossa sociedade permite!

Vamos assumir as nossas responsabilidades?

Vamos nos reunir para discutir o que precisa ser feito?

Vamos fazer o que precisa ser feito?

(Adriano Duarte)

Xadrez Verde e Amarelo

E no tabuleiro de xadrez chamado Brasil:

* Poucos peões ainda resistem dos dois lados;
* As duas torres já foram derrubadas;
* Os bispos se fingem de mortos;
* Os cavalos avançam de um lado;
* A dama de um lado está entre os cavalos;
* A dama do outro lado está sendo protegida pelo rei.
* Os reis já conseguem se olhar nos olhos, mas ainda estão muito longe de uma jogada que os derrubem.

E o povo brasileiro, que é dono do tabuleiro, só quer acabar com o jogo derrubando todas as peças, mesmo sabendo que irão se cumprimentar quando estiverem dentro da mesma caixa.

Eu penso que é hora de demonstrar os teoremas da vida e os macetes do xadrez, como disse Raul Seixas em “Loterias da Babilônia”.

(Adriano Duarte)

Sílvia e Priscila

Sílvia da Posse e Priscila da Paz têm quase 40 anos, moram na mesma cidade, no mesmo bairro, trabalham na mesma empresa, estudam na mesma faculdade, mas não se conhecem. Mesmo com tantas coisas em comum, Sílvia e Priscila são completamente diferentes, mas igualmente interessantes.

Sílvia é aquela mulher ligada no 220V o tempo todo, absolutamente prática, não para quieta um minuto sequer, vive correndo, fazendo mil coisas ao mesmo tempo e sempre acha que poderia ter feito um pouquinho mais. Trabalha há anos na área fiscal de uma empresa. É formada em Marketing, mas decidiu fazer Direito para tentar uma promoção, quando se especializar em Direito Tributário.

Priscila é o sossego em forma de gente. É aquela pessoa que a gente sente segurança quando se aproxima, de tão tranquila que ela é. Está há pouco tempo na empresa, mas já é reconhecida pelo seu volume de vendas. Ela é tão doce que ninguém se sente à vontade de dizer não para ela. Todos os colegas gostam dela. Finalmente, ela vai se formar, em Pedagogia, sua grande paixão, depois de ter começado e trancado outros dois cursos.

Mesmo tendo muitos colegas em comum, elas nunca conversaram. Na verdade, nunca se viram. Mas, Sílvia é bem atenta e já percebeu que Priscila é boa no que faz pela frequência em que seu nome aparece nas notas faturadas. E Priscila, como nunca gostou de áreas burocráticas, só ouviu falar de Sílvia por conta de como ela é chamada nos bastidores: Possessílvia.

As pessoas não perdoam. Sílvia é chamada, pelas costas, de Possessílvia, não só por conta de seu nome, Sílvia da Posse, mas porque todos reparam que, para ela, tudo é dela: o trabalho, o setor, a mesa, as coisas sobre a mesa, até os funcionários. Parece uma relação passional, mas é só apego, mesmo sendo muito clara a dimensão de energia que ela demanda.

Priscila também tem um apelido: Pipa. Também não é apenas uma abreviação de seu nome, é por conta de seu jeito leve e avoado de viver. Até seus amigos mais chegados e familiares a chamam assim.

Um tempo atrás, Sílvia perguntou para Stella, sua colega mais chegada:

– Você conhece essa vendedora, a Priscila da Paz?

– Não, Sílvia. Só ouvi falar dela, e muito bem! Mas, acredito que a Amanda deve conhecer. Quer que eu converse com ela?

– Não, Stella. Esquece…

Stella é a colega com que Sílvia mais se identifica. É a estrela do setor, a mais eficiente, a mais tudo, mais ligada e dedicada aos olhos de Sílvia. Já ensaiaram muitas vezes uma amizade, porque funcionam muito bem como parceiras profissionais, mas o jeito competitivo das duas sempre atrapalhou.

Dias se passaram e Sílvia continuava pensando em saber mais sobre Priscila. Não resistiu e foi falar com Amanda:

– Boa tarde, Amanda!

– Está tudo bem?

– Tudo bem sim, Amanda. Você conhece essa vendedora, a Priscila da Paz?

– Conheço sim. Ela é super gente boa!

– E parece ser muito competente também. Vende muito!

– Quer que eu a apresente?

– Não, Amanda. Esquece…

– OK.

E Sílvia nem imaginava que Amanda e Priscila são grandes amigas há muito tempo. Inclusive, foi Amanda quem indicou Priscila na empresa. Priscila sente um carinho tão grande por Amanda que a chama de Amada.

Amanda achou meio estranho porque quase nunca era procurada pela chefe, mas estranhou mais ainda o fato de Sílvia estar perguntando por Priscila. Continuou a trabalhar, mas continuou encasquetada.

Filha de uma professora de língua portuguesa e de um músico boêmio, Amanda recebeu esse nome porque, para os pais, Amanda significava a ação feminina e presente de amar, o gerúndio do verbo amar no feminino.

Como se viam e conversavam com muita frequência, Amanda comentou com Priscila:

– Tem uma coisa que estou achando muito estranha. Sabe a Possessílvia, a minha chefe? Andou perguntando sobre você, se lhe conhecia. Até perguntei se ela queria que lhe apresentasse, mas ela desconversou.

– Eu, hein?! Mas, se ela perguntar de novo e quiser conversar comigo, diga a ela para me procurar.

– Tudo bem.

– Mudando de assunto, agora me diga…

Quanto mais o tempo passava, os comentários sobre as proezas de Priscila como vendedora ganhavam eco nos corredores da empresa, até que um dia, ela ganhou um prêmio.

Quando Sílvia ficou sabendo, imediatamente achou que essa seria a oportunidade de ouro para, finalmente, saber quem é Priscila e tentar conversar.

No dia da premiação, Sílvia sentou ao lado de Amanda, mas não fez qualquer comentário sobre sua intenção de conhecer Priscila. Amanda também não puxou conversa. Mas, quando Priscila foi chamada à frente, Sílvia não aguentou e pensou alto, exclamando indignada:

– Essa que é a Priscila?!

Poucas pessoas ouviram. Amanda só olhou de rabo de olho, mas também não aguentou:

– Como assim, essa que é a Priscila?!

Gaguejando, mas tentando ser simpática, Sílvia respondeu:

– É que eu imaginei que ela fosse bem mais bonita.

– Mas ela é bonita!

– Sim, ela parece ser a simpatia em pessoa.

Sílvia ficou surpresa porque imaginava que Priscila fosse muito parecida com ela em todos os aspectos, da competência à beleza. E tenho de admitir que, realmente, Sílvia é uma mulher muito linda, deslumbrante. Inclusive, Sílvia achava que só uma mulher muito linda conseguiria vender tanto.

Depois da surpresa, enquanto a premiação acontecia, Sílvia começou a se perguntar como era possível Priscila se destacar tanto em vendas sem ser uma mulher deslumbrante. E o mais curioso é que Sílvia, mesmo sendo uma mulher lindíssima, é meritocrata ao extremo, acredita que nada cai do céu, se dedica ao máximo e jamais utilizou a beleza que tem para obter vantagens.

Priscila voltou ao seu lugar, na primeira fila.

Quando a premiação acabou, muita gente foi parabenizar Priscila. Amanda voou como um foguete em sua direção para lhe dar um abraço e Sílvia a seguiu como um rastro de pólvora. Chegou rápido, mas quando Amanda respirou para falar, Sílvia se colocou à frente dizendo:

– Meus parabéns, Priscila! Meu nome é Sílvia. A minha área é a fiscal. Há tempos que venho percebendo o seu talento para vendas pelo volume de notas que você fatura. Queria muito lhe conhecer. Você merece!

Amanda, antes de Priscila pensar em agradecer:

– Pipa, essa é a minha chefe, que disse que queria lhe conhecer.

– Hummm, então é você a Sílvia?

– Sim, sou eu. A Amanda comentou que eu perguntei de você?

– Comentei, sim. Eu e a Pipa somos muito amigas!

– É mesmo. Eu e a Amanda somos como unha e carne!

– Não imaginava. Mas, fico feliz em saber. E saiba que você é a simpatia em pessoa!

Amanda se sentiu muito perdida.

Sílvia se sentiu super à vontade.

Priscila gostou de Sílvia. Na verdade, houve uma empatia mútua e muito forte entre as duas. Enquanto tem gente que o santo não bate de jeito nenhum, os santos das duas trocaram beijinhos, sentaram à mesa e abriram um vinho.

Sílvia passou o seu número de telefone para Priscila e a convidou para almoçar. Priscila agradeceu e aceitou o convite sem confirmar a data porque trabalha muito na rua. Disse que ligaria para combinar quando tivesse certeza de que almoçaria na empresa. Sílvia sorriu, agradeceu, pediu licença e saiu.

Amanda continuou sem entender nada, não falou nada, acabou se esquecendo de abraçar a amiga e voltou para o trabalho.

Priscila e Amanda sempre foram como irmãs de tão parecidas. Compartilhavam tudo, absolutamente tudo: as preferências mais diversas, os grandes amigos, os valores, os segredos e alguns sonhos. Amanda, tendo apenas a imagem da Sílvia chefe em sua mente, não conseguia imaginar como seria um diálogo entre a megera e sua amiga, haja vista que nunca a viu falar de outra coisa a não ser trabalho. Acredito que ninguém nunca viu Sílvia ficar cinco minutos sem conversar sobre trabalho, e principalmente, sobre o trabalho dela.

Mesmo passando a impressão de ser avoada por ser muito desencanada, tranquila e romântica, Priscila sempre cumpre o que promete. Não se passaram muitos dias para o telefone de Sílvia tocar. Combinaram o horário e se encontraram no restaurante escolhido por Sílvia. Chegou um pouquinho mais cedo para garantir a mesa dela de sempre. Priscila chegou em poucos minutos.

– Olá, Sílvia! Como você está? Demorei muito?

– Oi, Priscila! Boa tarde! Tudo bem. Imagina, cheguei agorinha! E você, como está?

– Estou bem. Saiba que me incomoda muito deixar alguém esperando.

– Eu sempre chego cedo em meus compromissos, porque também não gosto de deixar ninguém me esperando. Falando em gostar, gosto do seu jeito. É bem parecido com o meu. Por isso que seus resultados apareceram tão rápido!

– Me desculpe, Sílvia, mas apesar dos nossos resultados serem reconhecidos como bons, acredito que somos totalmente opostas quanto ao estilo de trabalho que adotamos, com todo respeito, porque ouço muita gente comentar que você é muito durona e workaholic na empresa, exige muito de tudo e de todos o tempo todo. O meu ritmo é bem mais tranquilo.

– É que no meu setor, faço questão de que tudo seja muito bem feito e no prazo.

– Vamos pegar os pratos?

– Sim, vamos, senão a hora passa e eu tenho de voltar logo. Tenho um milhão de coisas para fazer!

– Nunca tinha vindo aqui. Gostei! Tudo parece ser muito bem-feitinho.

– Tudo fresquinho, bem-feitinho e gostoso. É o meu restaurante preferido por aqui.

Quando voltaram à mesa:

– Bom apetite!

– Sílvia, quando você vem ao restaurante, você coloca no prato tudo o que oferecem como opções?

– Você acha que estou comendo demais?!

– Como eu acharia isso, se o seu prato é a metade do meu?

– Não entendi.

– Você não colocou no prato todas as opções que o restaurante oferece. Escolheu o que gosta e o que precisa comer, né?

– É verdade, mas continuo não entendendo.

– Com o trabalho, eu faço exatamente a mesma coisa. Não faço tudo. Escolho fazer aquilo que preciso e que gosto. Assim, consigo fazer o que realmente é importante com mais tranquilidade e sobra tempo.

– Acredita que eu nunca tinha pensado nisso dessa forma?

– Acredito sim.

– Gostei!

– Que bom! Fico bem feliz!

– E adorei almoçar com você, Priscila! O que acha de almoçarmos juntas na próxima vez que você vier aqui?

– Acho ótimo! O que acha de almoçarmos no japonês ali da esquina?

– Eu sou vegetariana.

– Sem problemas. Que outro restaurante você gosta?

– Na verdade, eu gosto só desse.

– Já foi em todos?

– Nem todos, mas como gosto muito desse, sempre venho aqui. É gostoso, prático e sempre fui bem atendida.

– Então, vou te levar na lanchonete da academia ali, bem pertinho. Tem uns lanches naturais que você vai adorar! Combinado?!

– Não conheço, mas vamos lá sim. Combinado!

– Também gostei bastante de almoçar com você, Sílvia. A hora passou tão rápido que nem vi.

– Meu Deus! A hora! Tenho de ir embora! Beijo, Priscila! Obrigada! Foi um prazer!

Priscila ainda ficou para comer a sobremesa.

Apesar de Sílvia ter voltado ao trabalho com a mesma pressa de sempre, sem perceber, veio caminhando mais devagar, pensativa por conta de tudo o que Priscila lhe disse.

Amanda sabia que a chefe tinha almoçado com a amiga. Ficou observando de longe e percebeu rapidamente que Sílvia voltou calada, quieta e diferente. Na primeira oportunidade, telefonou para a amiga, perguntando como foi o almoço:

– Oi, Pipa! Como você está?

– Oi, Amada! Tudo bem. E você?

– Estou curiosa para saber como foi esse seu almoço com a Possessílvia.

– Foi bom, agradável e tranquilo. Só conversamos sobre trabalho.

– Eu sabia que aquela megera não falaria sobre outro assunto!

– Percebi que ela dá ao trabalho uma importância bem grande, mas, olhando nos olhos dela, senti que ela é uma pessoa do bem.

– Minha filha, você só fala isso porque não trabalha com ela. Só conversou por meia horinha.

– Abaixe a guarda, Amada! Depois a gente conversa mais sobre a Sílvia.

– Tudo bem.

– Beijo!

– Beijos!

Dias depois, na lanchonete da academia:

– Oi, Priscila! Boa tarde! Me desculpe por lhe deixar esperando.

– Olá, Sílvia! Fique tranquila! Eu cheguei cedo porque não peguei trânsito hoje. Praticamente um milagre! E você, como está?

– Estou ótima, só correndo como uma louca. Afinal, trabalhar, estudar, cuidar de filho e de marido e, além de tudo, ser mulher, não é nada fácil!

– Sei exatamente como é. Não é moleza, não! Você faz que curso?

– Sou formada em Marketing, mas comecei a fazer Direito no começo do ano. Quero me especializar em Direito Tributário para poder ser promovida. Ainda bem que é perto daqui a Unitudo.

– Eu também estudo na Unitudo! Faço Pedagogia. Me formo no final desse ano.

– Pedagogia? Sério?!

– Sim, porque adoro vender, mas amo crianças e ensinar.

– Vamos pegar os nossos lanches?

– Sim, vamos!

– Lembra-se , Priscila, do que conversamos durante o nosso último almoço?

– Lembro sim. Por quê?

– Porque você usou uma analogia inteligentíssima para me mostrar que posso escolher o que gosto e o que preciso no trabalho, da mesma forma que escolho o que comer.

– E?

– E como futura pedagoga, como pretende aplicar essa teoria com as crianças? Ou você vai deixar apenas as crianças decidirem o que vão aprender?

Priscila arregalou os olhos e não conseguiu terminar a mordida que tinha dado em seu sanduíche.

– Nossa, é mesmo! Você foi na mosca agora! Vou pensar com muito carinho sobre isso.

– Afinal, Priscila, quem tem mais conhecimento, quem está melhor preparado, tem a obrigação de contribuir orientando as pessoas ao redor, fazendo com que elas realizem as atividades, mesmo que ainda não tenham condição de entender a importância. Compreende?

– Mais ou menos, Sílvia. Como posso colocar o que você disse em prática sem assumir o papel de dona da verdade?

– Depois do que você me disse no outro almoço, talvez eu também não saiba, Priscila.

– Só sei que vou pensar muito sobre a nossa conversa de hoje. E vou torcer para almoçarmos juntas de novo o mais breve possível!

– Onde?

– Não sei.

– O próximo você escolhe.

– Você sabe que se deixar por mim iremos ao mesmo da outra vez.

– Por mim, não tem problema.

– Combinado?

– Combinado!

– E adorei a lanchonete. Ótima sugestão!

– A gente volta aqui para outro almoço.

– Sílvia, adorei o nosso almoço, a nossa conversa e me sinto muito grata pelo que me disse hoje!

– Por nada! E eu preciso voltar para o trabalho. Já estou atrasada! Até a próxima! Beijo!

– Beijos!

Dessa vez, Sílvia voltou ao trabalho com a mesma pressa e os mesmos passos acelerados de sempre, ligada no 220V e com um sorriso enorme de satisfação. Chegou no setor distribuindo ordens, marchando sobre seu impecável salto alto.

Sabendo que Sílvia tinha almoçado novamente com sua amiga, Amanda esperava que sua chefe voltasse tão quieta como da outra vez. Achou estranho, mesmo sabendo que o jeito dela era exatamente aquele no dia-a-dia. Se tão atarefada que estava, só conseguiu ligar para Priscila no final do expediente.

– Oi, Pipa! Como você está?

– Oi, Amada! Eu estou bem. E você?

– Morta… Você não ia almoçar com a Sílvia hoje?

– E almocei.

– Almoçou? Mas, dessa vez ela voltou elétrica e mandona como sempre.

– E por que ela deveria voltar diferente do almoço comigo?

– Eu esperava que ela voltasse calada e pensativa, como da outra vez. Conversaram sobre trabalho de novo?

– Não. Foi sobre estudo. E não estou entendendo o porquê de você estar interessada nisso.

– Deixa pra lá!

– Depois a gente conversa para combinar um dia para você ir almoçar lá em casa. Tudo bem?

– Bem melhor! Gostei! Beijo!

– Beijos!

No outro dia, na faculdade, Sílvia estava visivelmente cansada, sentada, sozinha num banco, quando Priscila a reconheceu de longe e foi puxar conversa:

– Olá, Sílvia!

– Oi, Pri!

– O que está acontecendo? Que cara é essa?

– Cansada.

– O que acha de irmos conversar lá no barzinho? A gente bebe alguma coisinha, depois entra. Não vamos demorar.

– Tudo bem.

No barzinho:

– Nossa, Pri, eu estou muito cansada. Tenho que tudo! É trabalho, estudo, marido, filhos e não sei nem como ainda consigo arrumar tempo para me cuidar.

– Ninguém te ajuda?

– Ajudar, o Osmar até ajuda, mas do jeito dele, não faz nada direito!

– E, fazer direito é fazer do seu jeito, né?!

– É… Não é bem assim…

– Olha, Sílvia!

– Acho melhor a gente entrar para a aula. Pode deixar que eu pago.

Sílvia é casada com Osmar há doze anos. Ela briga com ele o tempo todo porque acredita que ele seja devagar demais. Osmar nem liga mais. Se eles brigassem como cão e gato, ela seria um pit bull e ele seria um gato persa. Tudo para ela está malfeito. Ela o corrige o tempo todo, inclusive na frente das pessoas. Muitas vezes, ela chega em casa e começa a refazer as coisas, mesmo quando os serviços de casa são feitos pela diarista.

Osmar é irmão de Lindomar. Os dois são inseparáveis e adoram pescar. Nem preciso dizer o quanto Sílvia fica irritada quando fica sabendo que o marido e o cunhado combinam uma pescaria, não é? E ela acredita, do fundo da alma, que o marido é devagar demais e que o cunhado o piora nesse quesito.

Sempre que Sílvia fica brava, Osmar, que é Osmar Benedito, é chamado de “Osmardito” por ela. Mesmo assim, ela morre de ciúmes dele. Para Sílvia, Osmar é dela e pronto. Ninguém pode chegar perto. Ela olha fuzilando qualquer mulher que ela acredite que seja uma possível adversária; e na cabeça dela, as adversárias se multiplicam, apesar de Osmar nunca ter dado o menor motivo de desconfiança. E deve gostar mesmo, mas de uma forma muito prática, porque não é de dar demonstrações de afeto, apenas diz que gosta dela do jeito que ela é. Não precisa se preocupar com absolutamente nada, porque ela cuida de tudo, além de ser muito linda, admirada por todos e mãe de seus filhos: Pedro e César.

As pessoas estranham o porquê de Sílvia demonstrar tanto ciúme sendo a mulher deslumbrante que é. Mas não sabem nada da história dela. Desde a adolescência, Sílvia foi a mais linda da escola, do bairro, da faculdade, de todo lugar. Seu temperamento forte fazia com que sua beleza se tornasse ainda mais evidente e singular. Resultado: os meninos, os rapazes e os homens, ao longo de sua vida, não tinham coragem de chegar junto dela; menos os galinhas, porque ela sempre foi o maior dos troféus. Ainda bem que ela sempre foi muito esperta e nunca facilitou a vida de quem só queria subir no pódio.

Foi paixão à primeira vista quando Sílvia conheceu Osmar, numa viagem que ela fez sozinha para o Nordeste depois de descobrir que tinha sido traída pelo ex. Ela queria se vingar. Mas só se sentiu atraída pelo único cara que não olhou para ela, que também tinha viajado sozinho para filmar algumas imagens para um documentário. Osmar filmava o mar, as praias, as árvores, as pessoas e fazia entrevistas. Estava tão concentrado em seu projeto que não percebeu a beleza exuberante de Sílvia em nenhum momento. Ela achava charmoso o cuidado que ele tinha para posicionar a câmera sobre o tripé, o modo com que ele arrumava os cabelos e o sorriso que ele abria enquanto conversava com alguém. Ela acabou sendo seduzida por aqueles gestos lentos e cuidadosos daquele rapazinho distraído.

Além de linda, Sílvia sempre foi muito inteligente, e logo encontrou uma forma de chamar a atenção de seu objeto de desejo. Puxando conversa como quem não quer nada, enquanto ele tomava uma água de coco, ela conversou com ele superficialmente sobre cinema e ofereceu ajuda nos dias em que estivesse lá, dizendo que queria aprender um pouco e também para não ficar sozinha. Dias depois, quando ela já estava quase desistindo, Osmar percebeu toda a beleza de Sílvia quando a observou através das lentes de sua câmera. Ficou encantado! Na hora, ele teve o insight de perguntar se podia dirigi-la. Ela ficou surpresa, porque não havia percebido que Osmar havia lhe descoberto de verdade, mas acabou concordando sem demonstrar qualquer empolgação. Ele caminhou lentamente em direção a ela, pediu licença com toda e educação do mundo, mexeu nos cabelos dela e a posicionou, alegando que assim a luz a deixaria ainda mais linda. O coração dela acelerou e se deixou levar como se fosse uma boneca. Osmar acabou gravando o momento que, segundo Osmar, foram os segundos em que os olhos de Sílvia brilharam mais lindamente. Minutos depois, ele desligou a câmera e ela pediu para continuar. Ele balançou a cabeça, fazendo sinal de negação, se aproximou dela dizendo que não filmaria mais porque no documentário dele não havia espaço para cena de beijo. E a beijou!

Sílvia e Osmar voltaram da viagem juntos.

Na chegada, a primeira discussão. Sílvia ficou inconformada porque Osmar não filmou o primeiro beijo deles.

Ele assumiu o namoro quando foi apresentado por ela como namorado a todos os parentes que a esperavam no aeroporto. Bem no estilo “quem cala, consente”.

Em pouco tempo, noivaram quando ela quis, casaram quando ela quis, ela engravidou duas vezes quando quis e colocou nos filhos os nomes que ela quis: Pedro e Cesar, porque ela queria que seus rebentos tivessem nomes fortes.

Agora, parece que ficou mais claro como é o modus operandi de Sílvia. Pois tudo o que ela escolheu na vida é dela, como se cada pessoa tivesse “Sílvia da Posse” tatuado em alguma parte do corpo e cada coisa tivesse uma etiqueta com seu nome. Falando em nome, Sílvia quis casar como mandava o figurino porque fazia questão de dizer que é dela até o sobrenome dele: Paixão; Sílvia da Posse Paixão. Possessílvia Paixão? Meu Deus!

Priscila é bem diferente. Namorou por cinco anos e vive junto com Felipe há oito. Priscila o chama carinhosamente de “Fé”, porque ele é pérnambucano arrétado (com acentos agudos) e porque ela se sente absolutamente segura com ele. Pipa e Fé, resolveram morar juntos quando ficaram sabendo que ela estava grávida. Escolheram juntos o nome da filha, Luna, porque, segundo eles, não existe nada mais lindo do que a lua. Inclusive, foi graças ao luar que eles se conheceram. Ou foi graças a Raul Seixas?

Fé estava mal-humorado. Tinha saído no intervalo da faculdade porque não queria papo com ninguém. Caminhava usando fones de ouvido que tocavam a música “Gospel”, de Raul Seixas. Quando, de repente, no momento em que ele ouve cantando “Por que que sempre a solidão vem junto com o luar?”, ele vê a lua linda no céu e, quando abaixa o olhar, vê aquela mulher bonita, usando uma camisa do Raul e com os cabelos pretos brilhantes refletindo o luar. Boquiaberto de tanto encantamento, ele achou que fosse um sinal divino e a abordou, dizendo que a partir daquele momento acreditaria em Deus e no Amor porque a viu com aquele brilho de luar na cabeça, como se fosse um anjo. Pipa só olhou desconfiada e não respondeu. Continuou andando e ele a seguiu, dizendo que jamais a esqueceria porque ela teve o poder de mudar o dia dele, simplesmente por existir. O sorriso dela brilhou nos olhos dele. Ele agradeceu e pediu o telefone dela. Conversaram, se encontraram outras vezes, mas só começaram a namorar sob a luz da lua cheia seguinte.

Fé conseguiu ganhar o coração de Pipa ao longo do tempo, misturando força e romantismo na dose exata. Ele é um cara muito forte e batalhador, chega até a ser bruto em alguns momentos. Mas a sua capacidade de demonstrar carinho em pequenos e sutis gestos, além da certeza absoluta sempre poder contar com ele, despertaram o fascínio de Pipa. É aquele Amor forte, recíproco e leve! Não tem cobranças de nenhum dos lados, se ajudam em todos os sentidos, não há competição, educam a filha com muito carinho e arte, e conseguem manter suas vidas individuais sem ciúmes, numa boa, com muita confiança. Frequentemente saem separados para onde querem e com querem, sem nenhuma restrição ou estresse. Pipa e Fé apenas avisam um ao outro para onde vão e com quem. O respeito à privacidade é algo sagrado para os dois e admirado por todos.

Numa das caronas, na saída da faculdade, Priscila convidou Sílvia e toda família para um almoço em sua casa, no final de semana. Convite que foi aceito na hora!

Amanda foi convidada também. Agradeceu o convite, mas deu a desculpa de estar sem namorado e não se sentir à vontade de ir sozinha.

Sílvia, Osmar, Pedro e César chegaram para o almoço. Priscila e Felipe os receberam de braços tão abertos quanto seus sorrisos. Luna tinha ido passar o domingo na casa da avó. Felipe fez o almoço. Todos adoraram o peixe maravilhoso e a sobremesa deliciosa de manga! A conversa rolou gostosa entre todos, como se já se conhecessem de outras vidas. À tarde, os clubes do Bolinha e da Luluzinha se separaram na casa. Felipe, Osmar e os meninos se divertiram até… Priscila e Sílvia conversaram bastante:

– Que almoço delicioso, Pri! Adorei! O seu marido cozinha muito bem!

– O Fé deixa tudo delicioso que nem ele.

– Já o meu, não serve nem para fritar um ovo.

– O seu o quê?

– Marido, ué?!

– Por que você não se refere a ele pelo nome? Por que não o valoriza? Eu nunca ouvi você falar bem dele!

– É o meu jeito! Mas, saiba que eu amo muito o Osmar!

– Me desculpe, Sílvia, se eu exagerar. Mas, o jeito é seu, o marido é seu, os filhos são seus, o trabalho é seu, o setor é seu, os funcionários são seus. E eu, sou o quê?

– Você é minha amiga, ué?!

– Sua amiga, não!

– Como não?!

– Somos apenas amigas. Da mesma forma que o Fé não é meu marido, eu apenas vivo com ele, sou casada com ele; Luna também não é minha filha, eu apenas sou a mãe dela; Amanda não é minha amiga, apenas somos amigas. Entendeu? Ninguém lhe pertence!

– Para mim, isso é muito confuso.

– Acredito que seja muito mais dolorido do que confuso para se desapegar dessa forma de pensar. Pense com carinho sobre isso! Seja apenas a esposa, a mãe, a chefe, a amiga, sem se apropriar de nada ao seu redor, sem ter que nada. Deixe a vida e as pessoas ao seu redor mostrarem o que têm de bom! As coisas boas não precisam ser necessariamente do seu jeito. Me parece uma forma muito intransigente e pesada de se viver.

– Priscila, muito obrigada! Acho que eu precisava mesmo levar esse chacoalhão!

– Por nada, querida! Desde que nos conhecemos, percebi que você é uma mulher do bem e que tem um bom coração. Só precisa se exigir menos. E eu tenho muito a aprender contigo!

– Tem razão. E conte comigo para tudo o que precisar!

– Pode deixar!

Sílvia e Priscila se tornaram grandes amigas.

Osmar e Fé também pegaram carona na amizade das esposas.

Lindomar está até pensando em namorar sério, porque Osmar não quis mais pescar.

Amanda e Priscila continuam amigas, mas já sabem que seus caminhos começaram a se separar.

E você, está achando que a história acaba aqui? Que nada! A história linda de amizade de Sílvia e Priscila está apenas começando! E tenho certeza absoluta de que vai durar, pelo menos, anos e anos!

(Adriano Duarte)

A Ilha Sobre As Nuvens

É tudo de bom, e é um privilégio morar numa ilha sobre as nuvens.

A ilha é linda, muito verde, cercada de céu por todos os lados e com vista para o horizonte.

Na ilha, o tempo é sempre bom, seja dia ou noite. Não chove nunca, porque as nuvens ficam abaixo dos nossos pés.

Mesmo sem ter praia, é uma delícia tomar banho de sol. A gente coloca um pano sobre a grama, se deita e fecha os olhos. Como não tem terra, a sensação é de estar num tapete voador.

Quando sinto sede, não preciso de copo para beber água. Espeto o chão com um canudo e bebo água pura e fresquinha. É uma delícia!

É uma delícia também quando enfiamos as mãos no chão e pegamos granizo para jogar bolinha de gude.

Todas as casas são de madeira, bem grandes e bonitas, pintadas de verniz, com varandas grandes e suas chaminés soltam cheiro de comida de vó. Também não tem feira, porque é só colher as frutas, legumes e verduras no pé.

Sempre que alguém faz chocolate, todos raspam um pouco do fundo da panela.

Mesmo sendo bem grande a ilha, ninguém se perdia, porque entre os muitos bosques, cada uma das trilhas têm nome de doce, uma cor diferente e cheiro de uma flor. Todas brilham no escuro com a luz das estrelas e da lua e refletem um lindo colorido no céu quando o sol bate. Todos podem ir a qualquer parte a pé ou de bicicleta. Ninguém precisa de carro. E quando alguém quer ir à Terra, é só ir ao trampolim e pular de paraquedas. Para voltar, é só plantar e escalar o pé de feijão mágico.

Bem, amor, amizade e gratidão são as matérias ensinadas na escola.

Todos os animais são maiores que os da Terra, mas são mansos e têm pernas pequenas. E como não tem rio, todos os peixes da ilha são voadores.

O mais legal é que ninguém fala, todos cantam. As conversas são musicadas, cheias de poesia, e toda conversa começa e termina com um abraço. Em toda comemoração tem dança de roda.

Ninguém se preocupa em ser feliz, porque todos vivem bem. Isso é o que importa.

Aqui na ilha, todo dia é dia das crianças, até porque todo mundo é criança, inclusive os adultos e idosos. Na verdade, todos nós somos apenas essência. Todos nós temos o essencial. Todos nós somos essencialmente humanos.

E somos essencialmente humanos porque preservamos a essência da criança que existe em cada um de nós, para sermos capazes de acreditar plenamente no BEM.

Somente preservando a ingenuidade podemos acreditar plenamente no BEM!

(Adriano Duarte)

A Rapunzel de Mega Hair

Rapunzel era uma mulher muito bonita, moderna e contemporânea. Seus cabelos não eram cor de ouro, nem tão longos assim. Sua voz era muito bonita, mas não sabia cantar. Mas, se soubesse, ninguém a ouviria, porque ao redor da torre onde vivia, tinha barulho demais de carros, buzinas e sirenes durante o dia, e incomodar os vizinhos à noite, ela não queria.

Rapunzel vivia numa torre bem alta, rodeada por grades com cercas eletrificadas e vigiada por muitas câmeras que gravavam apenas a monotonia daquele lugar. Rapunzel, no século XXI, também vivia presa, mas em seu quarto, com a porta trancada e a chave bem guardada em seu sutiã. Nenhuma bruxa má a mantinha presa nem a ameaçava. Ela poderia sair pela porta da frente ou dos fundos, descer de elevador ou de escada, ganhar a rua pela portaria ou pela garagem, mas não, ela preferia ficar no quarto, vivendo o sonho de que poderia ser resgatada pela janela por um príncipe. Mas não qualquer príncipe, tinha de ser O Príncipe idealizado por ela, tão perfeito que só poderia existir em sua fantasia. Mesmo assim, ela tinha plena convicção de que um dia O Príncipe tão idealizado a resgataria da torre. Ela acreditava tanto na possibilidade de ser resgatada que encontrava solução para todos os problemas que surgiam. Como não sabia cantar e vivia em lugar muito barulhento, onde até os pássaros eram roucos, ela escrevia cartas dizendo coisas sobre si mesma e que queria ser resgatada da torre, fazia aviõezinhos de papel e arremessava pela janela. Mas, quem abria as cartas pousadas no chão, olhava para aquela janela e achava difícil demais vencer as grades e chegar àquela altura. Ninguém entendia o porquê de ela não descer para a rua, até porque Rapunzel não era princesa, era uma mulher como qualquer outra. Mesmo assim, alguns homens tentaram. Um foi com um caminhão dos bombeiros e armou a escada Magirus, mas como não era O Príncipe, ela não quis. Outro desceu de rapel pela torre até sua janela, mas como não era O Príncipe, ela não quis.

Dentro daquele quarto, Rapunzel continuava a escrever e a arremessar aviõezinhos pela janela, quando se deu conta de que seus cabelos não eram longos o suficiente para O Príncipe subir até lá. Imediatamente, decidiu fazer um mega hair enorme. Saiu de fininho da torre e foi ao melhor cabeleireiro que existia. Aproveitou que estava lá e também fez as unhas. Voltou ao seu quarto na torre o mais rápido possível. Ficou muito satisfeita com a beleza de suas novas e longas madeixas, passou um batonzinho e lançou suas tranças janela afora e suas esperanças se renovaram.

Com um sorriso no rosto, ela continuava a escrever e a lançar aviõezinhos pela janela, como se fossem flechas do cupido.

Muito tempo passou, mas Rapunzel continuava lá, apesar de só conseguir ficar na janela com os cotovelos apoiados, enquanto olhava para os dois lados da rua com a sobrancelha erguida, um biquinho de lado e um pé balançando impaciente. Até que um dia, finalmente, apareceu um homem que tinha tudo para ser O Príncipe tão idealizado, com um aviãozinho de papel nas mãos e um sorriso no rosto. Ela, curiosamente, quando o viu, abriu apenas um sorriso tímido e desconfiado. Seu coração não disparou. Mesmo assim, ela se curvou até que seu seio tocou a janela. O possível Príncipe caminhou até suas tranças e começou a subir. Mas, na metade da subida, o mega hair se rompeu! Ele caiu estatelado no chão e ela caiu para trás, dentro do quarto. Ela não se levantou para ver se o tal Príncipe, tão idealizado, tinha se machucado. Olhando para o teto, ela abriu um sorriso largo por alguns instantes e gargalhou como uma criança. Agradeceu profundamente por não ter sido resgatada por aquele homem e continuar naquele quarto.

Ela só se levantou depois que a sirene do SAMU já parecia distante. Olhou para fora da janela e viu que já não havia mais ninguém lá embaixo e suspirou aliviada.

Naquele momento, ela se deu conta de que não queria Príncipe nenhum, de que não queria homem nenhum e de que não queria escrever uma história com ninguém. Rapunzel se deu conta que apenas queria ficar quietinha, trancada no quarto da torre, escrevendo a sua estória, naquele ambiente onde tudo, absolutamente tudo, poderia ser exatamente do jeitinho que ela queria, sem tirar nem pôr.

Também se deu conta de que passou anos idealizando e esperando pelo Príncipe, simplesmente porque não queria assumir o ônus de sair definitivamente da torre pelas suas próprias pernas, por romantismo, não por comodismo; se bem que ela estava bem acomodada em sua fantasia.

Saiu da janela e ficou andando em círculos, pensando dentro de seu quarto, até que pegou a chave dentro de seu sutiã e decidiu ir lá fora recolher todos os aviõezinhos que havia lançado.

De volta ao seu quarto, carregando inúmeros aviõezinhos, deixou a porta entreaberta. Sentou-se em sua cama e começou a desdobrar os aviõezinhos e a reler tudo o que havia escrito. Pensou em reunir tudo aquilo e escrever um livro, mas logo desistiu, imaginando que ninguém leria.

Decidiu cortar e tingir os cabelos e não mais usar tranças. Doou todos os vestidos e comprou roupas novas.

Voltou ao seu quarto e sentou diante de sua escrivaninha, suspirou, e começou a escrever novas estórias, cheias de romantismo.

E sem sentir necessidade de trancar a porta do quarto, Rapunzel foi muito feliz em seu mundo!

(Adriano Duarte)

Seja Protagonista do Seu Show, Mas Faça Parte do Show dos Outros

Totalmente meio bossa nova e rock’n’roll. Protagonista do meu show. Este sou eu.

E como é difícil assumir o papel de protagonista da própria vida…

Atualmente, através da Psicologia, me preparo para ter melhores condições de ajudar cada um a ser protagonista de seu show, de sua vida.

Acredito na essência humana, na arte, nos propósitos da vida.

Acredito também que se cada um for protagonista de sua própria vida, o mundo pode sim ser um espetáculo com muita beleza, paixão, drama e Amor de verdade.

No palco da vida, eu sou um ator, eu atuo, com muita verdade!

E faça parte do show dos outros! Seja generoso e aplauda o show dos outros. Se não gosta, não vaie. Saia de fininho no intervalo entre um ato e outro ou espere na porta do camarim com uma palavra que possa ajudar a melhorar a próxima sessão.

Gratidão aos que fizeram e fazem parte do meu show!

(Adriano Duarte)

Semeando Amor

O Amor jamais é desperdiçado quando lançado ao vento
Por mais valioso que seja, o Amor não pode ficar guardado
Se ficar preso numa gaveta, com o tempo fica mofado
Mesmo sem destino certo, o Amor precisa de movimento

A semente do Amor não se perde, mesmo quando cai no cimento
Nem quando cai na sequidão do chão rachado.
Pode brotar quando cai na terra trabalhada com arado
Mas, como o Amor não é transgênico, é preciso respeitar o seu momento

A natureza é abundante quando o assunto é Amor
E não adianta furar a fila, querendo dar uma de esperta
A semente resiste a brotar quando é plantada por gente medrosa

O Amor somente brota quando a semeadura generosa
Precisa de terra, luz, adubo e de rega na dose certa
Só assim, cresce forte para dar frutos e flor

(Adriano Duarte)