Ansiedade

Ansiedade é sentir saudade do futuro.

(Adriano Duarte)

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Sobre o Menininho Sírio Morto na Praia

Na música “A Lei”, Raul Seixas escreveu que: “todo homem tem direito de mover-se pela face do planeta livremente, sem passaporte, porque o planeta é dele! O planeta é nosso!”

Em “Ouro de Tolo”, Raul nos mostrou que o cume calmo fica longe das cercas embandeiradas que separam quintais.

Em “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, d’O Rappa, fica claro que:
“As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão”

Sepultura, em “Territory”:
“Racist ground will live
Shame and regret of the pride
You’ve once possessed

War for territory
War for territory”

Será que é possível imaginar o que restou na vida do pai do menininho, que também perdeu a esposa e outro filho?

Enquanto isso, o mundo é tão grande, mas tão grande, que se colocarmos apenas uma pessoa por metro quadrado, todos os 7 bilhões de habitantes do mundo caberiam dentro da área do município de Placas, no interior do Pará.

Nós, brasileiros, temos o privilégio de viver em um país cheio de coisas boas, capaz de acolher haitianos, africanos de diversos países, chineses, entre tantos outros. Mas precisamos evoluir muito no sentido de acolher melhor o nosso próprio povo.

É necessário que a dor alheia cause muita indignação!

Enquanto quem detém o poder tiver apoio para construir muros, não serão construídos tetos para aqueles que não têm chão.

(Adriano Duarte)

35 notas, 26 letras e 10 números

Segundo Tom Jobim: “a música tem 35 notas que você pode escrever, que são as sete brancas, os sete sustenidos, os sete dobrados sustenidos, os sete bemóis e os sete dobrados bemóis, que dá cinco vezes sete, 35. É isso que você pode escrever na música ocidental.”

Agora sei o porquê de eu encontrar na música as respostas que não encontro nas palavras e nos números. Afinal, só existem 26 letras para construirmos as palavras e apenas 10 algarismos para construirmos os números.

Seguindo esta linha, imagine as possibilidades de todas as cores da Pantone?!

(Adriano Duarte)

Vivendo e Deixando Viver

Quando deixamos cada um fazer o que achar melhor com a própria vida, imediatamente temos duas vantagens:

  • Evitamos a intransigência, porque não exigimos que o outro viva da mesma forma que nós.
  • Evitamos a hipocrisia, porque não exigimos que o outro viva de forma completamente diferente de nós.

Para quê complicar?!

(Adriano Duarte)

Tim Maia e o Banho de Água Fria

Para mim, a Música Brasileira é uma das maiores riquezas de nosso país, pela qualidade, variedade de ritmos, musicalidade, poesia, arte, vozes, etc. Enfim, são tantas as qualidades que podemos atribuir à nossa música…

São tantos clássicos, cantores, cantoras, músicos, bandas, duplas e grupos reconhecidos ao longo do tempo, que falta espaço em nosso país para inúmeras boas produções. Por conta disso, muitos talentos são primeiramente, exclusivamente ou mais reconhecidos no exterior do que aqui; como o Ed Motta, que tem gerado polêmica ao escancarar o descontentamento com esta situação.

Mas o assunto que vou abordar neste momento não é sobre o Ed Motta, é sobre Tim Maia, o tio dele, tão polêmico quanto.

O assunto é a música “Você”, um dos maiores clássicos de Tim Maia, que tinha tudo para ser uma das maiores músicas de amor de todos os tempos, se tivesse um final feliz ou acabasse na metade da letra; o que, de forma alguma a desqualifica como Clássico, haja vista que a maioria das músicas brasileiras canta a tristeza.

Como sempre fui apaixonado por artes, muitas vezes ouço de olhos fechados uma música e tento imaginá-la como se eu estivesse lendo um livro. Desta maneira, quando a melodia e a poesia entram em meus ouvidos, sinto como se a música tomasse a forma de um sonho em minha mente.

Ouvindo a música “Você”, o meu sonho foi mais ou menos assim:

A música começa e simultaneamente entra a melodia leve e a voz grave e baixa, como se estivesse orando e agradecendo pelo amor, tão desejado, que havia se tornado real, e pelo fim do sofrimento:

De repente a dor
De esperar terminou,
E o amor veio enfim.

Eu que sempre sonhei,
Mas não acreditei
Muito em mim.

Vi o tempo passar,
O inverno chegar,
Outra vez.

De repente, ele olha para o lado e vê a mulher tão amada, os olhos brilham, o maior sorriso do mundo e seus braços se abrem em câmera lenta, gradativamente a melodia aumenta de volume proporcionalmente à sua voz e ele termina a estrofe cantando “Meu Amooooooorrrrrrrr” com muita alegria e satisfação:

Mas desta vez,
Todo pranto sumiu,
Um encanto surgiu,

Meu amor!

Ele vai ao encontro dela e a abraça com toda a força de seu amor, a melodia chega ao auge e ele canta o que sente por ela a plenos pulmões:

Você,
É mais do que sei!
É mais que pensei!
É mais que esperava!
Baby,

Você,
É algo assim!
É tudo pra mim!
É como eu sonhava!
Baby,

Sou feliz agora!

Mas, quando ele diz que agora é feliz, ela se desvencilha do abraço dele e termina tudo. A melodia cai de volume e a voz fica baixa e trêmula, ao mesmo tempo que as lágrimas brotam:

Não, não vá embora!

Não…
Não, não, não, não, não,
Não, não, não.

Um solo de guitarra surge enquanto ele pensa no que fazer diante daquela situação.

Ele tira de dentro do peito todas as forças de seu amor e decide declarar o seu amor por ela a plenos pulmões, mas lá no fundo, percebe-se a voz trêmula:

Você,
É mais do que sei!
É mais que pensei!
É mais que esperava!
Baby,

Você,
É algo assim!
É tudo pra mim!
É como eu sonhava!
Baby,

Sou feliz agora!

Mas ao perceber que ela não se deixou seduzir, as energias se esvaem e ele percebe, com muita tristeza, que a perdeu:

Não, não vá embora!

Não…
Não, não, não, não, não,
Não, não, não.

Um novo solo de guitarra surge enquanto ele pensa do que fazer diante da decepção.

Então, ele suplica, com todas as suas forças e muita tristeza. Mas, em momento algum, pergunta o que ela sente:

Não, não vá embora!

Não…
Não, não, não, não, não,
Não, não, não.

Vou morrer de saudade!
Vou morrer de saudade!
Vou morrer de saudade!

Não vá embora!
Não vá embora!
Não vá,
Não vá!

Vou morrer de saudade!
Vou morrer de saudade!

Não vá embora!
Não vá,
Não vá!

Vou morrer de saudade!
Vou morrer de saudade!

A música termina com ele sozinho aos prantos e ela indo embora. Mas não sabemos se ela estava bem ou não.

Se estivéssemos falando sobre futebol, “Você” seria a Seleção de 1982.

“Você”, para mim, é o maior banho de água fria da MPB.

(Adriano Duarte)

O Porquê de Pagarmos Tão Caro

Como sabemos que a educação pública é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar ensino particular.

Como sabemos que a saúde pública é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar planos de saúde.

Como sabemos que a segurança pública é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar condomínios.

Como sabemos que o transporte público é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar carros, combustíveis e estacionamentos abusivamente caros.

Como sabemos que as estradas públicas são muito ruins, nós nos esforçamos para pagar os pedágios caros das estradas concedidas.

Como sabemos que o valor da aposentadoria é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar previdência privada.

Como sabemos que a infraestrutura das cidades é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar caro por imóveis ou aluguéis em lugares menos piores.

Como sabemos que a infraestrutura de transportes é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar caro por todos os produtos que necessitamos.

Como sabemos que a infraestrutura energética é muito ruim, nós nos esforçamos para pagar a bandeira tarifária.

Como sabemos que o serviço de distribuição de água é muito ruim, nós nos esforçamos para economizar e para pagar por água mineral.

Como sabemos que a natureza não recebe o cuidado que precisa, nós nos esforçamos e pagamos os prejuízos causados pelas tempestades, vendavais, secas, etc.

Como sabemos que a coleta de lixo é muito ruim, nós nos esforçamos para reciclar uma pequena parte do lixo que produzimos.

Como sabemos que a nossa cultura não é devidamente valorizada, nós pagamos o preço de termos uma História escrita em papel de extratos bancários.

Como sabemos que a justiça é falha, nós nos esforçamos e pagamos a conta da corrupção.

Como sabemos que a desigualdade social é gritante, nós nos esforçamos e pagamos os impostos que bancam os programas assistenciais, além de pagarmos caro pelo preço da violência.

Como sabemos que é muito difícil poder pagar por tudo isso, nós nos esforçamos para trabalhar muito e pagar juros bancários abusivos.

Depois de ler tudo isso, você acredita mesmo que o impeachment da Presidente resolveria ou amenizaria alguma coisa?

Quem vai se dispor a diminuir o preço da nossa conta enquanto estivermos pagando regularmente?

Todos nós, brasileiros, pagamos um preço muito alto, independente de pagarmos de formas diferentes conforme a classe social a qual pertencemos!

O problema é que nós somos uma nação de bons pagadores; não de bons cobradores!

Vamos aprender juntos a cobrar?!

Vamos aprender como a nossa sociedade funciona para podermos apresentar uma proposta consistente de reforma política?!

Vamos aprender a votar?!

Vamos aprender que a culpa não é só da mídia?!

Eu tenho as minhas propostas…

Agora, quem quiser pode ligar a metralhadora giratória.

(Adriano Duarte)

Mulheres São Empresas, Homens São Empregados

Muitos homens, principalmente os mais velhos, costumam chamar suas esposas/companheiras de patroas. E não deve ser do nada que elas são chamadas assim.

Se observarmos com carinho, podemos perceber que as empresas escolhem seus empregados e as mulheres escolhem seus homens utilizando modi operandi muito semelhantes.

Em geral, as mulheres e as empresas priorizam encontrar no mercado pessoas confiáveis e com quem possam contar.

O primeiro encontro e as entrevistas de emprego têm em comum a exigência intrínseca de o candidato estar muito bem asseado e arrumado. Além disso, nestes momentos, o candidato será avaliado nos mínimos detalhes: as palavras, as opiniões, o currículo, a expressão corporal e, principalmente, a segurança que o candidato transmite. Qualquer deslize pode custar a desclassificação.

São raras as mulheres e empresas que dão oportunidade aos candidatos que não tenham experiência.

No Brasil, muitas mulheres e empresas reclamam da falta de candidatos no mercado.

Mas, mesmo neste cenário de aparente escassez, existem mulheres e empresas que quando abrem uma vaga, os candidatos fazem fila e disputam a vaga com muita dedicação. Além disso, essas mulheres e empresas são sondadas o tempo todo!

Qual o segredo do sucesso dessas mulheres e empresas?

Aparência e nome são determinantes apenas para chamar a atenção dos candidatos. Inclusive, a aparência e o nome podem atrair oportunistas que querem apenas enriquecer o currículo.

Generosidade é o que aumenta significativamente as chances das mulheres e empresas escolherem aquele bom candidato, com quem terão uma boa relação e poderão realizar belos projetos em comum. Sem generosidade, podem aparecer, no máximo, bons freelancers.

O grande desafio das mulheres e empresas é encontrar o equilíbrio necessário para que ofereçam benefícios que sejam suficientes para atrair bons candidatos, mas sem colocar em risco a própria saúde. Afinal, ser generosa não é dar tudo o que tem, é oferecer, de forma justa, o que pode ser dado no momento certo.  Generosidade é o que torna uma relação madura, com compreensão de ambas as partes. Sem generosidade, é criada uma relação de troca que impede um vínculo leal e com afinidades profundas.

Nenhum homem ou empregado se sujeita a ficar servindo por muito tempo (e com lealdade) uma mulher ou empresa que exige absurdamente, não dá uma folga e dá o mínimo do mínimo. Numa situação assim, o homem ou empregado pede as contas ou começa a panfletar currículos no mercado.

Quando a mulher ou empresa é generosa, o homem ou empregado tende a se dedicar muito mais a ela e de forma leal. O homem ou empregado passa a se sentir grato e reconhecido e será capaz de fazer tudo (e com boa vontade) o que a mulher ou empresa queira, sem se sentir explorado ou com vontade de migrar. Neste ambiente, os vínculos e bons sentimentos se consolidam e os projetos em comum fluem com facilidade.

Existem também os homens e empregados que se acomodam depois de um tempo com suas mulheres e empresas. Mas cabe a elas o papel de dar um chacoalhão neles ou mandá-los embora.

Existem também as mulheres e empresas que ficam sondando e tentando seduzir os homens e empregados que estão com outras…

Mas também, existem as longas boas e leais relações que acontecem entre as mulheres/empresas e seus homens/empregados, que depois de muito tempo simplesmente terminam por perceberem que precisam tomar rumos diferentes naquele momento. Elas podem terminar, mas fica um sentimento de gratidão por tudo o que viveram e construíram juntos.

Passar a vida toda juntos, também é possível!

As mulheres têm sim o poder de regular as relações, de escolher alguém bacana para conviverem.

Os homens podem ser muito generosos também, mas precisam do estímulo feminino para que isso aconteça.

Acredito que as generosidades masculina e feminina sejam bem diferentes. Mas isso pode ser tema para outro texto.

No fundo, se o amor é uma semente, a generosidade é a água que rega e faz brotar.

Veja que a natureza é generosa ao fornecer sementes! Mas é o ser humano que não sabe lidar com a água que tem.

Os homens podem até ser mais livres, mas o maior poder no estabelecimento ou fim das relações sempre será feminino.

Adriano Duarte

Minha Cabeça É Um Ônibus

Nasci.

Acendi as luzes.

Iluminei o itinerário, mostrando a direção para onde estava indo.

Abri a porta e deixei entrar algumas ideias que já me esperavam no ponto inicial.

Fechei a porta, engatei a primeira e comecei a seguir o meu caminho.

Em pouco tempo, outra ideia me deu sinal. Parei, abri a porta, ela entrou, se acomodou e eu segui em frente.

A linha da minha vida não é um caminho reto. Tive de tomar cuidado ao virar cada esquina porque dirigir um ônibus não é tão simples assim. Em todas as ruas e avenidas por onde passei havia pontos com ideias. Umas entraram, outras não, e algumas pediram para descer quando perceberam que tinham pego o ônibus errado.

Enquanto as ideias viajavam sentadas, as coisas estavam tranquilas.

Aos poucos, o ônibus foi lotando. Algumas ideias tiveram de viajar em pé. Outras se recusaram a embarcar porque preferiram por esperar o próximo. E eu não sabia que podia pedir para as ideias embarcadas darem um passinho adiante para liberar um pouquinho de espaço.

Umas ideias fingiram dormir para não dar lugar às que tinham o direito de irem sentadas. Outras passaram do ponto dormindo mesmo…

O ônibus ficava cada vez mais lotado, pesado e desconfortável, até que, de tão cheio, eu não pude parar em alguns pontos.

A viagem se tornou difícil. Muito aperto, calor e trânsito. As ideias não conseguiam se mexer. Eram tantas ideias amontoadas que elas não conseguiam conversar. Algumas discutiam. Todas estavam cansadas.

As ideias só começaram a desembarcar em maior número quando tinha passado mais ou menos um terço da linha. Algumas que estavam em pé puderam sentar e a viagem ficou um pouco melhor.

Mesmo com o ônibus menos cheio, tiveram ideias que deram sinal e eu não parei por medo de deixá-las entrar. Pode ser que tenha deixado alguma injustamente. Mas também podia ser alguma ideia que só traria confusão.

Algumas obras, ruas de feira, eventos e protestos me obrigaram a desviar do caminho que havia planejado inicialmente. Faz parte.

Sempre tive cuidado, mas nunca fui lerdo. Nunca me envolvi em nenhum acidente sério; só umas pequenas raladinhas e levei algumas multas.

Um pouco mais pra frente, parece que o caminho ficou bem mais rápido. Algumas ideias reclamavam que eu estava correndo demais. Outras acordavam com as freadas bruscas e se davam contam que tinham passado do ponto.

Tirei um pouco o pé do acelerador. Percebi que não estava tão atrasado quando imaginava.

Andando mais devagar e sem superlotação, minhas ideias puderam apreciar melhor um trecho bonito do caminho onde havia muitos pontos. Muitas ideias desceram, mas entraram outras com muita bagagem.

Segui em frente até chegar a um terminal onde várias linhas se cruzam. Mais da metade das ideias desceram, inclusive uma com quem eu conversava há bastante tempo e gostava muito: o perfeccionismo. Mas ele precisava descer ali e pegar um dos ônibus que seguiam pra outra direção. Quando o perfeccionismo desceu, a ansiedade desceu correndo no mesmo ponto e me senti aliviado.

No terminal, entraram muitas outras ideias bem distintas, porque vinham de direções bem diferentes. Saí do terminal com a lotação de assentos completa. Estavam todas as ideias viajando mais confortavelmente, mesmo as que tinham mais bagagem.

Dali em diante, a viagem ficou bem mais tranquila.

As ideias com bagagem têm uma conversa boa, sabia?

Ainda estou no meio do caminho. Tenho muitos pontos e terminais pela frente. Vou seguindo em meu caminho, tomando todo cuidado, desviando quando for preciso, enfrentando o trânsito que for necessário para não deixar nenhuma ideia para trás, passando correndo em alguma lombada, de vez em quando, só para acordar as que passaram do ponto.

Pretendo chegar ao ponto final com todas as ideias que precisarão estar lá naquele momento. De preferência, que esteja apenas com a lotação de assentos completa. Leve…

E tranquilamente desligarei o itinerário, abrirei as portas para todas descerem e poderei descansar depois desta viagem.

(Adriano Duarte)